O acordo (uma estória de adoção tardia)

 

Essa não é a vida que eu queria.

 

Antes eu queria minha mãe antiga, numa casa boa, cuidando de mim e de meus irmãos. Queria que ela me levasse para a escola, olhasse meus cadernos, comprasse lápis e caderno. Que brincasse comigo e me deixasse brincar com as outras crianças da rua. Queria olhar pra ela e ver como eu seria quando fosse grande, igual a ela. Isso é o que eu queria, mas não quero mais. Não aconteceu e não vai acontecer. Esperei por muito tempo e apenas coisas ruins aconteceram. Eu não quero ser ela.

Você também queria que sua filha viesse de outros jeitos, mas não deu. Queria que eu não tivesse lembranças além de você me levando ao parque. Queria olhar para mim e achar o nariz do tio e os olhos da avó, mas eu não tenho esses olhos. Queria, pelo menos, que a cor fosse a mesma. Não é.

Eu não saí de e você não estava lá quando eu nasci. Não me ensinou a andar nem me levou no meu primeiro dia na escola. Você queria que eu tivesse nascido hoje, que não tivesse essas lembranças. Te incomodam as lembranças tristes, por que crianças deviam ser sempre alegres. Te incomodam as lembranças alegres, por que você não está nelas.

Então eu estou aqui e você aí. Vamos começar daqui.

Eu vou chamar de mãe e você me chama de filha. Vai ser estranho por algum tempo, depois a gente acostuma. A outra eu vou chamar de mãe de barriga, mãe antiga, mãe de antes ou falo dela pelo nome. Vou falar pouco dela, não se preocupe. Você vai me apresentar aos tios e primos e me contar dos avós. Eu vou decorá-los, aos poucos. Se algum tio ou avó virar a cara ou me olhar torto, vou fazer de conta que não vi. Deixo a briga com os adultos pra você. Dos primos eu cuido, por que não tenho medo de menino.

Vai ter aquelas horas esquisitas. A visita ao médico que pergunta coisas que nenhuma de nós sabe, como vacinas e doenças na família. Ou a escola pedindo fotos de quando eu era pequena, ou histórias de parto. Nem sempre a gente vai resolver isso direito. As vezes eu vou chorar. Outras vezes vai ser você.

Você vai ter paciência se eu pedir uma boneca mesmo sendo grande desse tanto. Também vai ter paciência se eu quebrar a boneca. A boneca é minha, eu posso fazer o que quiser. Posso brincar, guardar, esconder das outras crianças, não querer emprestar, dormir com ela e até mesmo quebrar. É minha, não é?

Você vai ter paciência comigo e explicar muitas vezes aquele monte de regras. Como sentar na mesa, dar descarga na privada, passar sabão no sovaco, esfregar os pés, guardar a roupa limpa, não amontoar roupa suja, dizer “bom dia” para as visitas, não comer demais, não comer de menos, guardar caderno, não mexer na tomada da sala, não mexer nas suas joias, não mexer nas suas roupas, limpar a cama, arrumar a saia, não subir na janela, limpar os pés depois de brincar no pátio da escola, amarrar o sapato, dizer “até breve” pros tios (todos eles), não bater nos primos e muitas outras regras. Você vai ter que repetir muitas vezes mesmo. Muitas mesmo.

Eu vou ter paciência com você quando você falar essas regras, mesmo as que eu não entendo.

Esse é o acordo.

Um dia vamos esquecê-lo. Vamos fazer novos acordos. Uma mesada se eu tiver boas notas. Ir à festa se o armário estiver arrumado. Sair à noite se voltar antes das dez. Pode ser às onze?

Eu vou fazer o que puder para esse acordo dar certo. Posso contar contigo?