“Oi mãe.

Me disseram que você vai passar no abrigo. Me disseram que, talvez, quem sabe, você vai passar no abrigo. Então eu estou escrevendo essa carta pra você.

Eu era a Sheila.

Agora mudou. Agora sou Teresa, que nem a santa. Vou a igreja toda semana. É bonito, grande, a gente canta. É bonito mesmo.

Tô escrevendo para dizer que tá tudo bem, não precisa se preocupar. Tenho escola e casa. Bem melhor que o abrigo. A escola tem uniforme e a professora é muito bonita. Tem muitos cadernos e livros. Eu não gosto de ler. A professora disse que quando eu aprender vai ser mais fácil. Eu não gosto. As meninas da escola são legais. Elas têm um monte de coisas e as vezes emprestam.

Eu tô bem agora. Até minha tosse passou. As vezes volta, mas é bem fraquinha. Tem um xarope que eu estou tomando e vai resolver.

Então você não precisa mais se preocupar, nem vir pro abrigo. Eu tô bem”

 

 

- Acho que tá bom. – diz a menina de 10 anos.

- Bem, eu acho que ainda falta dizer algumas coisas. Você tá indo sozinha pra escola? Tá tomando o remédio sozinha?

A menina fica em silêncio, olhando para Dona Rosa.

- Teresa, a ideia de fazer essa carta foi sua. Pra que mesmo você queria essa carta?

A menina tenta, mas não consegue falar. Alguma coisa fica engasgada na garganta. Por fim consegue falar.

- Eu não quero voltar pra ela. Ela não era boa, não cuidava da gente. Ela ...- e a voz some.

- Teresa, você não vai voltar. Isso acabou, você foi adotada.

- Mas ela pode voltar, voltou várias vezes, nunca dava certo.

- Mas agora acabou. Tem decisão de juiz, papel passado, acabou.

A menina volta a ficar em silêncio.

- Olha, se for por isso, nem precisa de carta. Se ela aparecer, e quiser levar você, ela pode até ir presa. A polícia vai proteger vocês.

- Não.

- Eu só tô dizendo que ...

- NÃO QUERO ELA PRESA ...- começou a chorar a menina.

- Teresa, calma, isso não vai acontecer.

- EU SÓ NÃO QUERO VOLTAR.

- Não você não vai. – diz Rosa, e abraça a menina durante um tempo, enquanto ela se acalma.

- Eu acho que podemos deixar essa carta pra outro dia. Pensar nisso com calma. O que você acha?

- Não. Quero fazer isso.

- Tá então o que você quer dizer?

 

“Mãe, agora você é minha mãe de barriga. Isso por que eu tenho outra mãe. E um pai também. Eles são meus pais, todo mundo sabe disso. Me levam pra escola e pro médico. Lá que o médico disse pra eles por que eu tusso tanto. Eles compraram remédio e me dão o xarope todo dia. Eu vou ficar boa. Eles são meus pais. Na escola eu só posso sair se for com eles. Não posso sair sozinha, ou com outras meninas, ou com as mães das minhas amigas. Nem a empregada pode me levar. Só eles. Eles são meus pais agora.

Eu tô bem, não vem me procurar.

Se você vier, o juiz pode mandar chamar a policia. Você vai presa de novo.”

 

- Mais alguma coisa Teresa?

Teresa espera um pouco, procura o que quer dizer, e o que quer esconder.

- Você quer falar alguma coisa dos seus pais? Dizer que como eles são?

- Não. Ela pode procurar eles. Eu não quero que ela venha. E se eu desse um endereço falso pra ela? Posso escrever que fui pra outro pais?

- Acho melhor não mentir nessa carta. Ela vai ser sua despedida.

Despedida. Essa palavra mudou o olhar de Teresa. Um olhar forte, mas calmo tomou conta dela.

 

“Mãe, você foi uma boa mãe. Cuidou de mim.”

 

Rosa escreve e olha para Teresa. A menina desviou o olhar.

 

“Mas não deu certo. Você tentou bastante, mas não deu certo. Tô melhor aqui, e não vou sair. Não venha. Você também vai estar melhor sem mim. Você chorava muito, batia em mim, sumia.

Se tiver um emprego, pode ir sem pensar em mim, sem pedir pra alguém me vigiar.”

 

- Tá bom?

- Acho que tá. Falta só fechar. Todo texto precisa um encerramento.

- Não sei fazer isso. Ela vai receber?

- Não sei. Ela não aparece no abrigo a muito tempo. Mas eu vou botar num envelope, e se ela aparecer lá, eles entregam.

- Perdem tudo naquele abrigo.

- Mas a carta que eu vou deixar eles não vão perder, eles me conhecem.

- Tem medo da senhora.

- Tem sim – ri Rosa – vamos terminar?

 

“Se cuida mãe. Eu tô bem. Minha tosse vai passar e eu tenho uma família que vai cuidar de mim agora. Não se preocupe comigo, eu tô bem.

Cuide de você. Ache um emprego melhor do que o do bar, um que você goste. Se cuida. Boa sorte.

Adeus

Sheila.”