Saindo da casa de Dona Rosa, vai a família: o casal e a pequena menina, não mais do que oito anos, segurando nas mão do pai e da mãe. Parecem tranquilos, não felizes, mas tranquilos. Seguem pelo meio da vila, na direção da rua.
- Ela acreditou? - pergunta Marildes.
Rosa olha com certo espanto.
- Claro, por que não acreditaria?
- Por que você mentiu
- Não. Eu não menti. - respondeu Rosa, contrariada.


- Eu conheci a mãe dela. Chamava Telma.
- A mãe dela se chama Teresa, é aquela moça que sentou aqui e tomou café comigo. O pai é Henrique e eles vão levar Clarisse para comprar uma roupa nova.
Marildes ficou em silêncio um pouco, pensando se respondia ou respeitava o humor de Rosa, que não estava muito bom. Rosa continuava a arrumar a mesa, onde havia tomado café com o casal e a criança. Depois de alguns minutos, parou de arrumar e falou.
- Eu conheci Telma, e sua história, ou parte dela. E foi o que contei.
- Contou?
- Contei um pedaço. O que você espera que eu faça, conte tudo para uma criança de oito anos?
Agora era a vez de Marildes olhar para a rua e pensar na criança, que já sumira de vista.
- Telma teve cinco filhos. Clarisse foi a quarta. Se chamava Keyla. Chegou ao abrigo com três anos e foi adotada com cinco. Teve sorte. Ela foi abrigada por que o Conselho Tutelar tirou todos os filhos de Telma por maus tratos. Sujos, famintos e espancados. Eram Jefferson, Sheila, Keyla e Siara. O mais velho, Antônio, já era grande e estava preso.

Jefferson já tinha treze, não conseguiram uma família para ele. Ficou no abrigo um tempo, depois fugiu e ninguém soube dele. Sheila foi morar com uma avó, que pediu a guarda da menina. Não sei por que a avó fez isso, ela sempre reclamava das crianças, mal se sustentava. A menor, Siara, saiu do abrigo para morar com uma tia do interior. Nunca mais soubemos dela. Keyla foi pra fila de adoção.
Sheila ficou um ano com a avó, até ser achada de novo na rua. Voltou pro abrigo. Nessa hora aparece Telma, dizendo que estava recuperada, que não bebia ou usava mais drogas. Chorava os filhos perdidos, Antônio preso, Jefferson desaparecido e Siara no interior. Keyla e Sheila ainda estavam no abrigo. Telma disse que podia cuidar de uma criança, escolheu Sheila, não sei por que. O juiz devolveu a guarda da Sheila para ela. Dois anos depois a menina voltou para o abrigo. Estava agressiva, difícil. Tentaram achar uma família, mas Telma voltava vez por outra, dizendo que ia cuidar dela, e a menina acreditava. Cada vez que uma família aparecia, Sheila falava que adotar era besteira, que sua mãe de verdade ia voltar.

Keyla foi a única que escapou, que tem uma família. Quando foi adotada, pediu para mudar de nome. Teresa sugeriu Clarisse, disse que que era nome de escritora, e Keyla virou Clarisse.
Os pais dela, Teresa e Henrique, diz Rosa com um olhar severo para Marildes, me disseram que Clarisse, queria saber da mãe. Conversamos e eles vieram. Eu disse para Clarisse que sua mãe teve muitos problemas na vida, que não podia cuidar dela. Então ela foi para o abrigo, e depois foi adotada. Fim da história.

Rosa senta e toma o último gole de café. Marildes a olha com um olhar estranho.
- Você não falou dos irmão.
- Não, não falei. Pra que? Quem sobrou? Jefferson sumiu, Siara sumiu, Sheila tá no abrigo, mas disse que não quer saber de irmãos. Antônio, que está preso? Falar pra que?
Marildes olha para fora, esperando algo.
- Eu não acho certo mentir pra criança. A mãe dela não estava doente.
- Telma vendia drogas, eu sei, mas antes disso era uma viciada. Isso é doença. Ela tentou tratar mais de uma vez. Tentou mesmo, eu acho.
- É, mas a menina perguntou se a mãe voltou para visitá-las e você disse que sim, que tentou ficar com elas, levá-las para casa, mas a doença não deixou. Ela tentou levar apenas a Sheila, não todas.
- Ela estava doente. Creio que Telma esteve doente toda a vida. Eu disse que levou primeiro e Sheila e ia voltar. A doença não deixou. Gosto da minha versão.
- É que…
- É o que Marildes?
- Eu não acho certo mentir pra criança.
- Ela não veio aqui para ouvir toda a verdade. Ela tem oito anos que quer ouvir uma história bonita antes de comprar um vestido novo pra festa do dia das mães. Eu contei, ela ouviu e ficou satisfeita.
- E fica assim? Ela não tem direito a saber tudo?


- Tem, e se ainda quiser saber, quando tiver dezoito anos, irá a Vara da Infância e vai ler isso tudo, e muito mais. Algumas crianças vão, outras não. Algumas querem achar seu passado, saber cada detalhe. Outras sabem o suficiente, que a vida delas recomeçou, e que o passado ficou para trás.