- No inicio o pessoal da Vara disse que podia mudar o nome. Agora estão criando caso.
Essa é Dona Estela, que vai adotar um menino chamado Jurandir, com seis anos e dez meses. Aparenta seus trinta anos, mas não está em seus melhores dias. Nervosa, irritada.
- Dona Estela, o que a senhora queria mudar? - diz Dona Rosa.
- O nome. Eu detesto aquele nome. É … do interior, capiau, jeca. Ele vai ter o nome do avô, Haroldo, que foi advogado.
- Jurandir, o nome é Jurandir.
- Detesto.

- Entendo. A senhora conversou com ele?
- Ele? Pra que? Ele é uma criança, não sabe nada, tem seis anos.
- Seis e 10 meses. Quase sete.
- SEIS.
Silêncio. As duas aproveitam para tomar chá.
- A senhora vai avisar ao Pedrinho?
- Pedrinho? Quem é Pedrinho?
- Pedrinho, Rosa, Cira, Beto, Cirlene, Jiza, Kirlem e todos os amigos dele no abrigo.
- Ele vai fazer novos amigos na nova escola.
Mais silêncio. Dona Rosa está cansada. O dia nem foi longo, mas aquela conversa cansa. Aquela mulher a cansa. Mas precisa pensar no Jura, o Jurandir.
- E a Karleine? A senhora pensa que vai apagar a Karleine também?
- A mulher para horrorizada, olhando assustada para Dona Rosa.
- O pessoal da Vara precisa ser educado, eu não, então aproveite e ouça, essa pode ser sua única chance de se entender com seu filho.
Dona Estela desvia o olhar para a janela.
- O Jura, Jurandir, não é um bebê. Ele não nasceu ontem, não é uma página em branco esperando uma história. Ele existe, tem amigos e gosta de jogar bola. Os amigos gostam dele no gol, não como atacante. Ele não conta historias, mas se esconde bem. Ele existe. Cada vez que alguém chama o nome dele, ele se vira, por que ele sabe que “Jura”, ou “Jurandir”, é ele. Não dá pra reescrever isso.
- Mas a Vara disse que eu posso …
- … mudar o nome dele. Sim pode. Se fosse um bebê, ou até os dois anos, ele nem reconheceria eu nome. Mas ele acorda todos os dias esperando que alguém chame o Jura, escale ele para o gol. Ele conhece e está acostumado a esse nome. Precisa mudar o sobre nome, para dar a ele uma mãe, pai e um avô advogado. Uma família inteira. Mas o nome, a senhora devia pensar primeiro.
O silêncio continua na sala. Mas Dona Rosa tenta diluir seu mau humor no chá, sem muito sucesso.
- Se ele fizer novos amigos, e acho que fará, isso será muito bom. Mas não pode proibi-lo de manter os amigos antigos. Não pode apagar o Jurandir e sua história.
- A vida dele vai recomeçar. Vai mudar tudo.
- A senhora é casada. Quando casou isso foi um recomeço?
- Não, foi uma nova etapa.
- Mas mudou de nome?
- Sim.
- Mudou de casa?
- Sim.
- Fez novos amigos, os do seu marido?
- Sim, mas…
- Mudou de nome, endereço, amigos, rotina diária, horário, hábitos, planos futuros, enfim, sua vida?
- Sim, mas eu era adulta, eu decidi fazer isso. Ele tem seis anos.
- ELE TEM SETE. Já morou na rua e tomou conta dele mesmo. Sobreviveu por quase um ano sem nenhum adulto ajudando realmente. É mais do que posso dizer de muitos outros adultos. Ele tem direito a ser ouvido. A equipe da Vara da Infância perguntou a ele se ele queria ser adotado. Ele precisou dizer que queria, que não esperava mais que a mãe biológica dele, a Karleine, voltasse. Ele também decidiu. Se ele dissesse não, não iria para a adoção.
- Mas ele é uma criança.
- Sim, mas tem uma história que não pode ser apagada, ou ignorada. Converse com ele. As vezes as crianças querem mudar de nome, mas se ele não quiser, eu acho errado impor isso a ele.
- Eu sempre quis que meu filho se chama-se Haroldo. Penso nisso mesmo antes de casar. Eu tinha planos.
- O Jurandir também tinha, era ficar com a mãe e ter uma vida normal. É provável que Karleine também tivesse planos, e tenho certeza de que não eram desaparecer e deixar um filho para trás. Todos temos que fazer novos planos de vez em quando. Seu casamento foi exatamente o que planejou.
- Foi um bom casamento.
- Exatamente como planejou?
- Não. - disse depois de um tempo. - Éramos jovens demais, idealistas, otimistas até a alma. Mas foi um bom casamento. Não me arrependo.
- Então não faça o Jurandir se arrepender de dizer sim para adoção, de dizer sim para você. Se quiser, pergunte se ele quer ser Haroldo, mas não como uma sentença de morte, onde se ele precisa apagar toda sua história para ser adotado. Que seja uma nova etapa, um recomeço.
Dona Estela segura a xícara e olha para a janela, como se protegesse a xícara de algo ruin que viria de fora.
- Eu tenho um sobrinho de trinta anos, que nunca cuidou de si. Mora numa casa alugada pela minha irmã, que vai lá para limpar a casa e pegar a roupa suja. É um inútil. Provavelmente será um inútil daqui a trinta anos. Inteligente, já terminou a faculdade, especialização e é um inútil. Esse menino cuidou de si por um ano. Sobreviveu, sozinho.
Desvia o olhar da janela, e com carinho pousa a xícara na mesa.
- Está bem. Se ele quiser ser Jurandir, que seja. Vou mostrar a foto do avô, quem sabe. Contar histórias. E depois eu pergunto para ele se quer mudar de nome.
- Pergunta pro … Jurandir?
Dona Estela para e olha para Dona Rosa, frente a frente. Percebe que estava chamando o menino pelo nome, Jurandir.
- É, Jurandir. - fala pausadamente. - Se ele não quiser Haroldo, quem sabe eu me acostumo com Jurandir.