Claudiomiro foi devolvido. Estava com a família há dois meses, ainda em adaptação. Um dia a família foi ao abrigo com Claudiomiro e as malas. Ele não perguntou nada, não entendia o que estava acontecendo.

Na Vara, a família alegou muitas coisas. Disseram que Claudiomiro era mal educado, que sujava o quarto com lama, que não arrumava o armário, que respondia para os pais, que beliscou a filha do vizinho. A lista era longa.

A técnica da Vara ouviu tudo. A princípio tentou argumentar, mas cedo entendeu que aquele era um caso perdido.

Claudiomiro ficou sozinho no quarto no primeiro dia. Não quis sair. Ele não queria encontrar os amigos e explicar o que havia acontecido. Ele não sabia o que havia acontecido. No segundo dia ele descobriu que não fazia diferença esperar por um dia ou dois, ele teria que sair. Teria que encontrar os outros meninos e responder sobre o que havia acontecido. Botou um short e uma camiseta e saiu. Estavam jogando bola. Perguntaram apenas se ele queria jogar. Ele disse que sim, e ninguém tocou no assunto da devolução.

Claudiomiro tinha 7 anos. Quase sete, na verdade. Vai fazer 7 daqui a um mês. Estava sonhando com a festa de aniversário.

De tudo que aconteceu, ele só se arrependia de ter beliscado a filha do vizinho.

No início, a vida de Claudiomiro não era ruim. Teve dois pais que cuidavam dele. Eram pobres, mas atenciosos. Mas um dia o pai sumiu e ficou difícil para a mãe manter a casa. Fazia bicos e pedia esmolas. Moravam na rua, até acharem uma casa abandonada, e sem portas. Não era invasão: a casa não tinha portas. Ficaram lá um bom tempo. Um dia a mãe de Claudiomiro arrumou um novo bico: vender drogas. Era apenas um ponto na esquina, e ela ficava lá a noite toda, ora vendendo, ora consumindo.

Um dia ela não voltou de manhã. Claudiomiro tinha 3 anos.

Os vizinhos chamaram a polícia, depois que notaram que a mãe não aparecia há dias. A polícia levou Claudiomiro para o abrigo.

As atendentes dizem que sua mãe veio vê-lo duas vezes. Uma, estava muito alterada, talvez drogas. Gritou, jurou que levaria o filho daquele lugar. Voltou, muito tempo depois. Dessa vez estava calma, mas com uma aparência muito cansada. Conversou, soube que poderia reaver o filho se tivesse com a vida arrumada. Não precisava de muita coisa, apenas um emprego e um lugar para morar. Talvez apenas uma fonte de renda, que não fosse drogas.

- E se eu não conseguir?
- Então ele vai para a adoção.

Ela não disse nada. Ouviu, levantou-se e se despediu da cuidadora.

Nunca mais voltou.

O abrigo para onde Claudiomiro foi não era o melhor da cidade, mas estava longe de ser o pior. Os meninos tinham tudo, e dividiam tudo, do quarto às roupas e brinquedos. A maioria das peças de roupas não tinha um dono específico, podendo ficar cada dia com um menino diferente. Como os brinquedos.

Claudiomiro não sabia muitas coisas.
Ele não sabia arrumar suas coisas, porque ele não tinha coisas para arrumar.
Ele não limpava o tênis, porque nunca tivera um tênis.
Ele não sabia como se comportar, porque ninguém lhe ensinara.

Ele achava injusto que brigassem tanto com ele. O chão cheio de terra nunca foi um problema no abrigo. Nem o armário, nem as roupas bagunçadas. Ele não entendia por que foi devolvido.

Ele só se arrependia de ter dado o beliscão na menina. Ele sabia que não devia. Aprendera no abrigo que não se deve brigar com crianças que tinham pais. Ela tinha tinha pais. Ele brigara com ela por que ela falou que o casal não era os pais de verdade dele, que ele não tinha pais de verdade.

Ele se arrependera de dar o beliscão. Ela estava certa.