Todos que visitam Dona Rosa olham os porta retratos. São tantas crianças, tão diferentes. Há grandes e pequenos, sozinhos, grupos, fotos coloridas e preto e branco. São roupas de missa e cenas de festa. A maioria são fotos posadas, crianças arrumadas sorrindo para a câmera. Alguns grupos estão sérios, mas a maioria está sorrindo ou rindo mesmo. Sempre crianças.
Quase sempre. Alguns porta retratos possuem duas fotos, uma da criança, e outra de um adulto que um dia voltou para conversar com Dona Rosa. Tem também umas poucas fotos de famílias. Essas são fotos de muitos sorrisos. As mães sorriem, as crianças sorriem, todos sorriem. São sorrisos grandes, são fotos bonitas. Nelas está escrito adoção, nas famílias tão diferentes em cores e rostos, mas todos sorrindo.


As vezes Dona Rosa arruma as fotos, muda de lugar. Os porta retratos passeiam pela casa como um pequeno rebanho, sempre junto. Ela já pensou em coloca-los numa parede, mas desistiu. Pode cansar, e ai, como mudar?
Alguns cenários se repetem. A porta da frente do abrigo aparece em muitas fotos. Dá para ver as mudanças, as reformas. Algumas fotos envelheceram mais do que outras.
Quase não há bebês.
Eles não precisavam de fotos, ficavam pouco tempo.
Um tem 4 anos, outro 6 anos, 10, 13. Alguns parecem rapazes, quase adultos. Tem de todas as cores, mas a maioria é de mulatos. Tem um japonês, ou índio. Algumas tem nome, a maioria não.
E tem a foto da menina, separa em local de destaque, como se fosse uma parente. Todos ficam curiosos. Uns poucos perguntam quem é a menina bonita, cuja foto bonita tem destaque, está separa do rebanho de imagens. Geralmente Dona Rosa suspira e muda de assunto.
História antiga. Mais café?
Vez por outra, fica olhando a foto como se tentasse lembrar. Depois segue com a conversa, em outra direção. Filha? Rosa nunca teve, pelo menos é o que se diz. Nem filha nem marido. Há histórias, mas só amigos sabem, e estes não falam. Não, não é filha. Nem biológica nem adotada.
Todos foram meus filhos. Alguns por dias, outros aparecem ate hoje.
O retrato da menina permanece lá. Algumas vezes, ele se mistura com as outras fotos, como as crianças se juntam para brincar juntas. Depois voltam cada uma para sua casa. As crianças voltam para seu grupo, e a menina volta para seu lugar especial.
A maioria dos visitantes nota a foto, destacada e separada, mas não pergunta. Ao saírem, fazem comentários, tecem teorias, acreditam nelas.
Se você der sorte, muita sorte, vai ouvir a história da foto, pela Dona Rosa:

Não sei quem é. Queria saber, mas não sei.

Um dia começamos, mais uma vez, a arrumar os documentos. Certidões estavam em ordem, mas havia outras coisas. Cartas, exames, pedidos, um monte de papéis inúteis. E havia as fotos. Tirávamos fotos por vários motivos. Uma iam para a Vara, para mostrarem para as famílias. Outras eram para as crianças mesmo. Elas adoravam ver suas fotos, guardar, terem uma história, um passado registrado. Algumas eram para registrar a presença de alguém que ia embora, ser adotado. Os amigos queriam uma foto, uma garantia de que não seriam esquecidos. Não funcionava, mas ficava a foto.
Um dia, numa dessas arrumações, achamos uma caixa e começamos a ver o que havia. E achamos ela. Eu reconhecia a roupa, usada em muitas crianças numa época. Sabia que devia ser entre tal e tal ano. Sabíamos que estávamos todas lá: eu, as moças do abrigo, as serventes, todo mundo.
Mas ninguém lembrava daquela menina.
Ela era grande, não podia ter sido adotada muito rapidamente, as crianças grandes não são. Falamos com a equipe da Vara, ninguém lembrava dela. Olhávamos a foto vezes e vezes. Aquela roupa era conhecida. Sempre usávamos quando precisávamos tirar boas fotos, dezenas de meninas usaram. Não era uma visita, era alguém que ficou no abrigo por algum tempo.
Olhamos os registros de entrada e saída do abrigo. Não achamos nada. Voltamos a Vara, procuramos registros de adoção, crianças encaminhadas ao nosso abrigo, ou mesmo a outros. Nada.
Começamos a nos perguntar como essa menina passou pelo abrigo e ninguém sabia quem ela era.
Eu havia aprendido que não acharia famílias para todas as crianças, que nem tudo teria uma boa solução. Alguns seriam adotados, ou voltariam para suas famílias, e nunca mais viriam ao abrigo. Mas nem todos. Havia aqueles que ficavam entrando e saindo do abrigo, até que fosse tarde demais. Muitos já chegavam velhos demais para adoção, ninguém os queria. Ficariam no abrigo até serem adultos, e seguiriam suas vidas do jeito que conseguissem. Alguns fugiam. Havia muitas histórias, nem todas com finais felizes. Eu sabia disso. Todas nós sabíamos disso.
Mas sempre sabíamos o que havia acontecido enquanto a criança estava conosco. Sabíamos quem era a criança.
Menos a menina da foto.
De tudo que não deu certo, de todos os casos que não acabaram bem, para mim este foi o pior. Nós nem sabíamos que era ela.
Muitas crianças desaparecem. As adotadas nem sempre gostam de visitar o abrigo, a maioria eu acho. Algumas voltam para suas famílias e queriam esquecer que estiveram no abrigo. Algumas famílias desapareciam por inteiro. Mas enquanto estão no abrigo, nós sabemos quem são, seus nomes, histórias, brincadeiras e amigos.
Menos a menina da foto.
Essa é uma das muitas coisas que não deram certo, mas essa é a pior, por que nós sequer fizemos o básico. Nós sequer nos lembramos dela.


Se você ouvir essa história, se Dona Rosa conta-la para você, depois de ouvir, se levante, despeça-se e saia. Ela vai recolher as xícaras, colocar tudo na pia e ficar olhando para a foto, imaginando de onde veio a menina, e para onde foi.