Duas batidas na porta anunciam o visitante. D Rosa abre e encontra um homem, passados dos trinta, alto, magro com uma expressão tensa, ansiosa.
- Dona Rosa? Dona Rosa Figueiredo?
- Sim, mas não sou parente do general - disse rindo.
- ???
- É uma brincadeira. Sim, sou eu, e o senhor é?
- Manoel, Manoel Andrade. Ah, senhora lembra de mim?


Para quem trabalha com crianças, essa pergunta é sempre um desafio, mas D Rosa já passou do ponto de se preocupar com as reações.
- Não meu filho, me desculpe mas você vai ter que me ajudar um pouco.
- Eu estava no abrigo, em 81.
- Eu estava lá, mas faz muito tempo e eu estou confundindo os rostos agora.
- Meu nome não era Manoel, era José.
- Você ficou lá muito tempo?
- Não sei, creio que menos de um mês.
- Seu Manoel, uma criança que ficou menos de um mês a mais de 30 anos, eu não vou lembrar. Quer um café?
- Não precisa, mas ... sim, obrigado.
D Rosa se ausenta da sala. Manoel fica olhando a sala. Vê a comoda coberta de fotos. Ele olha, procurando algo. Logo nota que há fotos antigas, mas poucas. Impossível dizer a idade das fotos.
- Conhece alguém? - Pergunta Rosa.
- Ah, não, realmente não.
A pergunta era apenas para continuar a conversa.
- Então, me diga o que você está fazendo aqui, procurando algum amigo? Algum irmão?
Os olhos dele brilharam, surpreendido pela referência a um irmão.
- Eu ... eu fui adotado. - falou com tom severo, como se devesse ser uma afirmação surpreendente. Rosa não demonstra surpresa.
- Quem bom - finalmente ela disse. - E seus pais ainda estão vivos?
- Não sei, eu não conheço eles. A família que me adotou, o pai morreu, a mulher ainda está viva. Dos meus pais verdadeiros eu não sei.
- Você quer dizer seus pais biológicos, não é?
- Não, meus pais mesmo, de verdade. - disse quase furioso.
D Rosa tomou seu café, dando uma pausa para ele se recuperar. Ele sentiu que estava mais nervoso do que queria, que não conseguia prosseguir.
- Seu Manoel, por que o senhor não me explica por que está na minha casa, perguntando sobre o abrigo?
Um suspiro, uma tentativa de retomar a calma, e ele começa.
- Semana passada eu estava arrumando os papéis de meu pai, isso é, do homem que me adotou: Ribamar. No meio dos papéis eu achei documentos mostrando que eu havia sido adotado, a trinta anos, no abrigo onde a senhora trabalhou. Eu .. Eu não sabia disso, eles nunca haviam dito nada.
- Sua mãe ...
- ELA NÃO É MINHA MÃE.
- A esposa do seu Ribamar está viva?
- Sim. Tentei falar com ela. Moramos juntos, na mesma casa, mas ela só faz chorar sem sair do quarto.
- E o senhor quer ...
- Saber a verdade, encontrar minha família verdadeira.
- Tentou o cartório? Vara da Infância?
- Tentei, não consegui nada. No abrigo Dona Marildes me falou da senhora. Ela disse que eu fui deixado lá e ninguém foi me visitar.
D Rosa olha pensativamente, procurando um caminho para conversar.
- Seu Manoel, é triste, mas a verdade é que talvez o senhor nunca consiga achar seus pais biológicos. As pessoas somem.
- A senhora não lembra de nada?
- Mais de trinta anos, tantas crianças - diz enquanto se vira para as fotos na comoda. - Alguns ficaram anos, outros apenas semanas. Podemos procurar um pouco mais, mas não quero dar esperança.
O olhar dele se torna vazio.
- O senhor tem filhos ?
- Tenho, uma menina, 6 anos, Cristiane.
- Cristiane? Nome bonito.
- Era da minha tia. Não, isso é, da irmã do Ribamar, não é uma verdadeira tia …
- Ela conheceu essa tia.
- Ela ia muito lá em casa. Eram tia Cristiane e Cri, minha filha. A tia morreu tem dois anos.
- Gostava dela, da sua filha?
- Adorava. - Surgiu uma coisa que parecia um sorriso - enchia ela de bala e brinquedo.
Um pequeno silêncio passou pela sala.
- Você já mentiu para ela, pra sua filha?
- Não. Eu nunca menti pra ela.
- O que disse quando sua tia morreu.
- Eu contei a verdade, que ela tava doente.
Nesse momento o homem fica paralisado olhando para Rosa, como se uma sombra passasse entre eles.
- Mas teve a Júlia, amiguinha da escola, que morreu num acidente de carro. Eu não podia contar isso. Ela é uma criança, eu não podia falar da amiga atropelada, foi horrível. Ela acha que a menina tá viajando.
- Não dá pra contar tudo as vezes, também acho. Mas sabe quando vai contar a verdade? Tem uma data? Quanto tempo dura essa viagem da Júlia?
O homem fica paralisado. Não, não ia contar. Esperava que o tempo passasse e ela esquecesse.
- Ela vai esquecer.
- Melhor amiga?
- Criança esquece tudo.
- É possível que sim, crianças esquecem muita coisa, tudo não. Mentimos pros filhos, depois não sabemos voltar a atrás. Ela tem 6? Muito pequena. Vai contar quanto tiver 14, 18?
Ele olha para ela como quem procura perdão, ou uma saída. D Rosa respira e começa, num tom mais duro, mais firme.
- Seus pais, aqueles que levaram você pra escola, pro médico e até pro altar no seu casamento mentiram pra você. Sim, eles disseram uma pequena mentira a trinta anos, e esperaram que o tempo passasse. Não fizeram isso por mal. Não tinham uma intenção ruim, simplesmente achavam melhor não falar nisso. Foram covardes, todos os pais são. Eles mentem pro filhos. No dia do aniversário da sua filha ela vai pedir pra convidar a amiga, ou vai perguntar quanto tempo dura essa viagem. O que o senhor vai dizer?
Ele estava a um passo de chorar. Talvez pelos próprios pais, talvez pelo medo de ser confrontado pela filha.
- Seu Manoel, tome seu café antes que esfrie.
Ele se mexeu, como se acordasse, devagar, para pegar a xícara.
- Eu não vou achar meus pais, não é?
- Como eu disse, a gente pode procurar, mas não quero dar esperanças. - disse num tom brando, mas endureceu quando prosseguiu - Seus pais biológicos fique claro, por que a avó da Cristiane está em casa, esperando pelo senhor. Chorando.
Ele já não tinha raiva, era apenas uma grande confusão sem fim. Olhava para D Rosa como se pedisse ajuda, orientações.
- Não devo procurar pelo meus pais … biológicos?
- Não sei se deve ou não, mas pode procurar, é seu direito. Muitos procuram, alguns acham, mas raramente acham aquilo que estavam procurando. Mas o senhor quer, então vamos procurar. Mas antes, antes vamos cuidar nos nossos, da nossa família. O senhor vai agora em casa e vai falar com sua mãe dona …
- Vera, o nome dela é Vera.
- Diga isso direto, vamos.
- O nome da minha mãe é Dona Vera.
- Vai falar com ela, pedir desculpas por essa confusão toda. Depois, quando ela ficar mais calma, e isso deve levar uma semana, o senhor traz ela aqui e a gente senta e vê o que ela lembra. Mas não fala sobre isso hoje não. Hoje é dia de trazer a paz de volta para casa.
Ele parecia estranhamente aliviado.
- E a Cristiane?
- Sua filha?, Sim, o que tem ela?
- Eu conto pra ela?
- Que você foi adotado? E acho que sim, mas deixa pra outro dia. Tem uns livrinhos pra criança muito legais.
- Não, sobre a Júlia, a amiga dela? Eu conto?
- Bem, Seu Manuel, essa confusão toda começou por que um adulto achava que mentir pros filhos resolvia os problemas. Resolveu?