Dona Rosa, Professora Estela e Das Dores, a vizinha, estão sentadas na mesa olhando desenhos que Estela trouxe da escola. A tarefa das crianças era desenhar as mães. O exercício tem várias utilidades, de testar o desenvolvimento motor até ver como as crianças enxergam suas mães.
- Veja este - mostra Estela
- Que horror! A mãe dele tem dentes enormes. Muitos dentes. - se espantam Rosa e Das Dores - E o que é isso nas costas?
- Uma barbatana.
- Por queeee?
- Ela é um tubarão.


- ???
- O menino está na fase do tubarão. Camisa de tubarão, mochila de tubarão, livros de tubarão, poster de tubarão, festa de aniversário de tubarão. Ele é um tubarão. Então, a mãe dele é um tubarão. Podia ser pior.
- Nem quero saber. - diz Rosa -E o que é isso? Que bicho é esse?
- Isso é da Marieta. Boa menina, comportada, atenta, mas desenha desse jeito. A mãe já pensou em distúrbio motor, levou no médico, fez exame e tudo. A menina não tinha nada, é só ruim de desenho. Muito ruim.
- E esse de bigode? - pergunta Russa.
- A mãe morreu, muito tempo atrás, então "meu pai é minha mãe". Esse cabelo não é do pai. O menino fez uma mistura do pai com a mãe. O pai gostou, achou que é uma homenagem a mãe.
- Olha esse aqui.
- Cadê a mãe?
- Aqui.
- É uma flor, uma margarida.
- É. O nome dela é Margarida, então … Ficou bonito, não?
Elas continuam a olhar os desenhos, tentando entender o olhar das crianças sobre suas mães.
- Que desenho lindo! Esse menino é um artista - diz Das Dores.
- Não é dele - duvidou Rosa.
- Não é não - confirma Estela.
- Como não?
- Ele trouxe esse desenho de casa. Acho que o pai fez. O dele mesmo é esse.
- Hum. Não terminou.
- Nunca termina. Diz que a mão tá doendo e para no meio. Leva pra “terminar” em casa. É um exemplo de preguiça.
- Talvez não seja isso. Pode ser que ele sinta que não pode fazer igual ao pai, ai nem tenta.
- Isso também. Mas não pode ser assim. Vou ter uma conversa com ele.
- Com o menino?
- Não, com o pai. Como sempre, o problema são os pais. Quase sempre.
- Quando existem pais.
- Olha esse aqui.
- Lindo. Me diz que a mãe não é desse tamanho.
- Não, é maior. Ah, sim, era esse que eu queria mostrar.
Mostra uma folha onde aparece uma fila de pessoas. Primeiro vem uma mulher com quatro braços. Depois uma outra muito grande, chega ao topo da folha. Por fim duas pessoas que mais pareciam esqueletos.
- Isso é um cortejo!
- É sim. Todas são mães do Chico.
- Todas?
- Ah, sim, ele foi lá na frente explicar. Parou a turma para explicar.
“A primeira é a mãe de verdade, minha mãe, Vevê, Dona Verônica. Tem quatro braços por que faz muitas coisas.Ela estuda, trabalha pra pagar a escola e o curso de judo, viaja, cuida da casa e estuda. Precisa de muitos braços.
A segunda é minha mãe de barriga. Eu tava na barriga dela, grande do jeito que eu sou hoje. Então ela deve ser muito grande.
Aqui é minha avó, mãe da Vevê. Ela é mãe duas vezes, por que é mãe da minha mãe. Então aparece duas vezes. E ela tem cabelo, mas o cabelo é branco, então não dá pra botar branco encima de branco. Mas ela tem cabelo.”
- E o que você disse?
- Que tava lindo.
- E essa confusão de mães? E o que a turma achou?
- Ficaram meio confusos, mas não ligaram. Uns acharam bobo e protestaram que não sabiam que podia botar as avós. Outros disseram que a avó parecia um esqueleto. Parece mesmo. Alguns ficaram com inveja.
- E o que você vai fazer. - Perguntou Das Dores?
- Com ele? Nada. Tem mães, até de sobra, deu explicação pra tudo, está feliz da vida. Pra que eu vou me meter nisso? Tenho problemas maiores. Tenho pais que inibem os filhos a desenhar, tenho os preguiçosos, tenho dois que simplesmente não quiseram desenhar. Esses são problemas. Chico? Tá ótimo.