Na pequena sala da casa o silêncio é desagradável. Em volta da mesa estão três mulheres. A mais nova, Keyla, mal chega aos 15, talvez 14. Está grávida e sua expressão é de raiva. Ao seu lado está Valdirene, uma versão mais velha de Keyla. Do outro lado da mesa está Dona Rosa.
- Milha filha, pensa melhor, isso …- fala Valdirenes.
- Eu não sou filha sua, eu não tenho mãe. Meu filho vai ter. - Keyla responde sem tirar os olhos de Rosa, que está a sua frente.


- Mas sou sua tia, e posso ajudar.
- Meu filho vai ter MÃE.
Na frente de Keyla está Rosa, a amiga do bairro, que já trabalhou no abrigo de crianças onde Keyla tantas vezes passou. Rosa conhece pessoas da Vara da Infância. Ela preferia estar no trico, ou sentada na varanda da casa. Mas não conseguiu dizer não para uma menina de 15 anos grávida.
- Keyla, nós vamos na Vara, pode ser até agora, e conversamos com eles. Lá tem uma lista de famílias, e eles vão escolhar uma família que irá adotar seu filho.
- Eu quero escolher. Quero escolher quem vai ficar com meu filho.
- Isso não pode. Não sei se é certo ou errado, mas não pode.
O rosto duro de Keyla de abaixa e seus os olhos se enchem de agua.
- Mas eles garantem que vai ser uma família boa, rica?
- Eles garantem que vão visitar a família, ver se são boas pessoas, se a casa tem espaço, conforto. De vez em quando eles pode até ir lá para saber se está tudo bem. Rica eu não sei, mas vai ter casa, comida e escola. E vai ter pais.
Um silêncio longo se espalha na sala. A expressão de Keyla agora é de dor quando fala.
- Vamos.
- Você é minha sobrinha, não dou permissão. - Valdirene segura o braço da menina - E a senhora não se meta em assunto de família. - fala para Rosa.
- LARGA - grita Keyla. A tia se encolhe e recolhe a mão.
- Dona Val, a decisão é dela. Ela não pode criar esse filho, mesmo com sua ajuda.
- Cria sim. Eu tô com três lá em casa, a gente dá um jeito.
- A gente quem, tia? Você e seu namorado? Minha mãe?
- Sim, sua mãe vai ajudar a gente. É obrigação dela. Ela tem que ajudar.
O olhar de Keyla para a tia é frio, vazio.
- Onde ela tá?
- Não sei, mas ela aparece, ai a gente diz que ela tem que ajudar você, ajudar a gente.
- Tia, essa é minha mãe. - e aponta para Rosa.
A tia esboça uma resposta, levanta os braços, mas não diz nada.
- Obrigado por falar isso Keyla, mas eu não sou sua mãe. Não fui.
- Foi o mais perto que tive. Você e a Dani.
Rosa lembra de Dani. Não era parente ou outra cuidadora, era apenas outra menina do abrigo. Daquelas que ficam, que não são adotadas. Ela chegou já com sete anos, e ficava dizendo que não queria ser adotada por que a mãe ia voltar. Quando Dani parou de falar nisso, já era tarde demais, ninguém queria adotar uma menina de 10 anos. Com o tempo ela começou a ajudar no abrigo, cuidando das mais novas, como Keyla.
- Sua mãe não teve sorte, ela era muito nova …
- Eu não tive sorte, tia. Eu, você, a Dani, ninguém teve. Mas você não sumiu, não foi presa.
Mais um momento de silêncio. Todos queriam estar em outro lugar, fazendou outras coisas. Qualquer lugar, qualquer coisa
- Vão perguntar pelo pai - diz Rosa.
- Eu não sei quem é. - diz Keyla, numa mentira óbvia e firma.
Rosa pensa no próximo passo.
- Bom, então vamos a Vara da Infância, vamos conversar com eles.
- EU SOU SUA TIA, A ADULTA QUE CUIDA DE VOCÊ E EU PROÍBO. Eu já cuido de três, cuido desse também.
Keyla olha para a tia, com uma calma que até assusta.
- O Pezão tá na Amoreira.
Valdirene mostra surpresa, e responde:
- Não, não tá não.
- Tá pagando a prestação e o aluguel, não tá?
- Tem emprego.
- E aquela moto, ele também comprou? Com o “emprego”?
Valdirene olha assustada para a sobrinha, como se ela fosse algo terrível.
- Ele, ele …
- Tá lá agora.
Valdirene recua. Olha para Rosa. Se levanta e sai, apressada.
- Pezão? - pergunta Rosa.
- É o do meio. Tá com 12 anos. Arrumou serviço la na Amoreira, com Serjão. Ele deve tá …
- Eu sei. - responde Rosa, que conhecia a fama da Praça da Amoreira como ponto de distribuição de drogas e roubo de veículos.
- O que você vai fazer depois? - pergunta Rosa.
Keyla faz um silêncio. O que ela vai fazer depois? Voltar pra casa da Valdirene? A tia vai aceitar, um dia. Mas tem outros. Tem o namorado dela, tem Pezão e os irmãos. Pezão falou que mulher que larga filho não presta.
- Eu não acho seguro para você ficar lá. - diz Rosa.
Keyla ouve em silêncio. Sabe que é verdade.
- Eu posso voltar para o abrigo?
- Talvez. Podemos ver isso na Vara. Keyla, sobre o pai…
- Tem 13 anos.
É a vez de Rosa ficar em silêncio. Pode ser verdade ou não. Não faz diferença. É como se não houvesse nenhum pai.
- Eu posso ir pra casa da Dani - diz Keyla, quase sorrindo. - Ela tá num sala e quarto, não muito longe do abrigo.
- Precisamos conversar com ela. Dani agora é uma mulher, tem uma vida.
Keyla se vira para Rosa e fala, calmamente.
- Vamos para a Vara. Depois eu vejo isso.
Se levantam e saem.