- Foi naquele momento que eu soube que ela era minha filha. Eu estava na escola, vendo a apresentação do dia dos pais, e ela acenou pra mim. De repente eu estava chorando.
Essa declaração foi a primeira do grupo. O tema, segundo a coordenadora, era o “momento perfeito”, aquele em que a mãe ou o pai sentiu que o filho adotado era realmente seu filho.

- O meu foi no parque,quando eu percebi quanto estava morrendo de medo dele se machucar, cair essas coisas. Eu era uma mãe. - disse uma senhora chegada aos trinta, mas ainda vaidosa o suficiente para se preparar para a reunião do grupo de apoio a adoção num bairro de classe média.
Os depoimentos continuavam. Algumas falavam de medos, outras de um novo olhar para as crianças. A coordenadora estava satisfeita, mas sentia que havia problemas. Silvia, uma advogada jovem, olhava o grupo com olhos inquietos, receosos. Já havia recusado a falar mais de uma vez.
- Na primeira festa de aniversário ...
- Um dia, quando acordou e me chamou de mãe ...
- Quando eu vi a foto dele na Vara da Infância. Naquele momento me coração bateu mais rápido, porque eu reconheci o filho que eu tanto procurei.
Seguiam os depoimentos, cada um ressaltando a “mágica” do momento.
- O meu foi quando eu mandei a professora dele à merda.
Essa é Tereza. Ela parece baixinha, mas na verdade não é. Qualquer um parece baixo do lado de Jonas, o marido. Eles não são o casal típico desse grupo. Negros, com empregos que não exigem diplomas, ele segurança e ela cozinheira.
O grupo ainda se recuperava da frase quando ela explicou.
- A professora sempre chamava o Zito de “Zito, o filho adotivo da Tereza”. Ele perguntou pra ela por que ela falava assim. Ela .. – respirou um pouco e prosseguiu - e ela disse pra ele que eu não era a mãe de verdade dele. Que eu era a mãe adotiva, uma mãe substituta. Substituta é o c...
Jonas pousou a mão sobre o braço de Tereza que se acalmou um pouco.
- Eu fui na escola, junto com o Zito, e procurei a professora. Disse um monte de coisas. A primeira é que eu sou a mãe dele, a única, a de verdade. A outra, que Deus a tenha, foi a de barriga. Ela cuidou dele por um tempo, mas sumiu, desapareceu. Eu sou mãe adotiva, sou sim, mas sou a mãe dele, a única e a que tá na certidão. Sou eu que vou na escola, leva no médico, compra roupa e dá bronca. Ele só tem a mim no mundo – alguém se mexe do lado dela – e o Jonas. Tem o Jonas também, que é pai. Não é pai substituto, reserva, essas coisas. Ele é pai. No fim eu disse pra ela que era pra chamar eu de mãe e ele de filho, só isso, senão eu voltava lá. Eu sou mãe e ele é filho. E o Jonas é o pai.
- Mas você não gosta que chamem seu filho de filho adotivo? Você tem vergonha disso?
- Não, não tenho. Mas se vai chamar o Zito de filho adotivo, quero que chame os outros de filhos paridos, ou de barriga. Eduarda, filha de barriga da Dona Lourdes, assim. Mas ninguém fala assim, então por que tem que lembrar SEMPRE que o Zito é adotado? Precisa?
A conversa mudou para mostrar e esconder. Esconder que uma criança é adotada é errado, mas não precisa falar sempre, cada vez que fala o nome da criança. Não precisa esse destaque permanente, como senão fosse realmente filho, e ela não fosse realmente mãe. Existem muitos tipos de filhos, pais separados, mães solteiras, criados por avós, etc. Mas todos são filhos e mães.
- E pais também. – destaca Jonas, meio esquecido apesar do seu tamanho.
A coordenadora tenta retomar o controle da reunião, colhendo novos depoimentos. Silvia, a a advogada, olhava para Tereza com uma expressão feliz, quase eufórica, e levantou a mão para falar.
- Silvia, você quer falar?
- Sim, sim. Meu momento mágico, quando eu senti que era mãe foi quando minha mãe, a avó do Jeferson veio visitar a gente. Ela nunca gostou da adoção e olhava o Jeferson de lado, saltava umas indiretas.
- E como foi a visita?
- Ótima. Eu mandei ela à merda! – respondeu, com um imenso sorriso.