Desculpe, Dona Rosa. Eu tentei. Ele também tentou. Acho que ele tentou mais do que eu, me ajudou, mas não deu, não vai dar. Eu não quero ser a mãe dele. Não é que ele tenha feito alguma coisa, ele não fez. Aprontou uma confusão na escola e outra na casa da minha mãe, mas não foi isso. Eu não nasci pra ser mãe. Não dele nem de ninguém.


Acho que não casei por isso, não queria dividir minha vida com ninguém, nunca quis. Morei com um namorado por dois anos. Um dia acordei, sai de casa e não voltei. Gosto do meu canto, só meu, sem dividir. Decido tudo, da cor das paredes a onde ficam os móveis. Sozinha.

 Ai veio essa história de ter filho, de adotar. Todos falam que toda mulher quer ser mãe, que precisa cuidar de alguém. Todo mundo fala isso. Minha mãe fala isso. Eu acreditei. Achei o Jeferson. Disseram que não ia dar certo por que ele já tinha oito anos, que era quase preto, tão diferente de mim. Nada disso. Eu até gostei de comprar coisas, procurar escola, comprar roupa. A gente brincou de de arrumar e rearrumar a casa. Eu gosto dele, muito. Mas não vai dar.

Um dia teve o problema na escola, fui lá ver. Ele tinha brigado, as professoras disseram que a culpa não era dele. De repente eu vi aquele garoto machucado e a culpa era minha. Ele não disse o que foi, não falava. As professoras disseram que isso acontece, que os outros meninos provocam. Mas isso não importava. O que me doía era saber que eu botei ele ali, que eu era responsável por ele estar machucado. Chorei mais do que ele. A diretora esqueceu do Jeferson pra cuidar de mim. O Jeferson veio cuidar de mim.
Ai ele ficou doente. Não era muita coisa, mas foi pro hospital, tirou sangue, raio x. Tudo isso e era apenas gripe. Tirou sangue por que eu mandei. Depois eu quase desmaiei. E ele veio cuidar de mim.
Eu não aguento pensar que ele depende de mim. Que ele vai ficar doente, brigar na escola, esperar que eu explique frações e ajuda na redação. Eu não aguento pensar que ele depende de mim.
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Me lembro da moça da Vara da Infância falando que criar um filho era difícil, que dava muito trabalho, que era um desafio. Eu ri da menina, uma psicóloga mal saída da escola. Disse que era advogada, que trabalhava com policia e bandido todo dia. Já havia brigado com delegado e teve um “cliente” que apontou uma arma pra mim. Mandei o cliente ficar quieto, e ele ficou.
Nunca chorei na vida, agora estou assim. Minha mãe até veio me abraçar outro dia. Ela mesmo falou que nunca me tinha me visto chorar.
O Jeferson fica quieto o tempo todo. Sorri pra mim esperando que …
O que ele espera de mim?
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Devolver pro abrigo não, você não vai. Para onde eu não sei, mas pro abrigo você não vai.
O pessoal da Vara vai arrumar uma família. Se não arrumar, eu acho, mas pro abrigo você não volta.

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O que foi, Jeferson? me conta. Se você não contar eu vou ficar mais assustada, vou acabar chorando de novo. Eles disseram o quê? Que eu sou quê? Você brigou por mim? NÓS VAMOS LÁ AGORA. Meu Deus, você é lindo. Queria estar lá pra te defender. É sempre você que me defende. Você tá certo, ouviu? Não me importo com o que falam de mim, mas isso é sobre nós, sobre você também. Você tá certo, se ele falar de novo, acerta ele que eu te defendo. Professora, a senhora me desculpe, mas ele tá certo, e eu não vou reclamar nem fazer nada com ele. Ele me defende e eu defendo ele. Defendo até na justiça, sou advogada.
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Psicóloga? Pra mim? Eu não sou louca, apenas não dou conta de uma criança. Não sei como as pessoas, fazem, não sei como minha mãe fez. Tá, eu não sei o que vou fazer. Não posso devolver ele, não é um cachorro, um aparelho quebrado. Ele me defende! Nunca fizeram isso por mim. Só minha mãe. Eu sempre me virei, briguei, resolvi. Agora tem ele. Ele briga mesmo, rola, sangra, perdeu um dente. Era de leite, mas ele perdeu. E ganhou a briga. Ninguém mais brinca com ele. Quer dizer, brincam, jogam bola, essas coisas de menino. Mas tem o maior respeito. Eu sinto os olhares quando vou na escola: “é a mãe do Jefferson”. Nem no tribunal me olham assim. Ele faz tudo por mim. Qual é o telefone?
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O que você quer de aniversário? UM CARRO? Tá doido? Você não tem idade para uma bicicleta. Ok, você tem uma bicicleta, mas carro é caro, precisa ser adulto, estudar, ter carteira. Se tivesse 16 eu podia te emancipar e você podia tirar uma carteira, mas carro custa caro pra manter. Carro do Júlio? Quem é esse Júlio? Jeferson, você acha que eu vou acreditar que seu coleguinha tem um carro? Pickup? Pickup você sabe falar, mas bactéria você erra na prova. Chega de conversa, nem quero mais ouvir essas besteira.
Controle remoto? O carro é de controle remoto, de brinquedo? Ah, claro, lógico. Sim, meu filho, eu compro. Um melhor do que o do Júlio. O seu vai ter farol.
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Aquela pirralha da Vara, a psicóloga, disse que a família dele sou eu, que ele não tem ninguém mais. Que sou eu ou nada. Queria bater nela. Quase bati. A psicóloga diz que eu estou aprendendo a confiar em mim, outra inútil.
Minha mãe deu pra rir. Eu vou lá, choro e ela fica de papo com o Jeferson. Rindo, sei lá do que.
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Esse não é neto que você esperava, mãe? É o que veio. Eu fui a filha que você esperava? Você queria que eu fizesse enfermagem, lembra? Era pra casar com médico. Sim, eu sei, seu tempo era outro. Não fiz enfermagem, nem casei. Talvez, se tivesse feito, quem sabe. Mas me lembro de você na minha formatura. Disse que ninguém na família tinha diploma de doutor, eu era a primeira. Anote: Jeferson vai ser o segundo.
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Jogador de futebol? Isso lá é profissão? Neymar é o *%$#@. Eu posso falar sim, eu sou adulta e sua mãe. Não me interessa se não sabe escrever mitocôndria: se cai na prova você vai aprender. E você joga bola pior do que escreve, nós dois sabemos disso.
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Desculpe Dona Rosa. Eu tentei. Eu disse ia arrumar uma família, uma mãe de verdade. Mas não deu. Agora sou eu ou nada. Agora eu preciso confiar que eu vou dar conta de ser a mãe dele. Amém.
Socorro, eu tô repetindo a pirralha e a inútil.
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A senhora acha que eu posso ter alta? Mas não é cedo? Vir aqui duas vezes por semana tem ajudado tanto. Essa semana eu nem chorei. Não, isso não quer dizer que estou pronta, não estou não. Vamos fazer assim, uma vez por semana? Quinze dias pode?
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Jeferson, você continua sem saber escrever mitocôndria. Pior, agora quer que eu explique o que é. Acho que descubro o que é mitocôndria antes de descobrir o que é ser mãe.
Vamos meu filho, vamos resolver isso. Pega o dicionário.
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Eu sou sua mãe e você é meu filho. Não foi bem isso que nenhum de nós planejou, mas é o que temos. Agora põe esse uniforme que hoje tem prova de recuperação e você vai. Não me interessa se vai ser reprovado, nessa família a gente briga até o fim. Minha mãe me ensinou isso.