Duas crianças. Uma menina de 8 e um garoto menor de 5.
- Eles tem piscina? - pergunta o menino.
- Não.
- Então não quero ir.
A menina está arrumando uma boneca, os poucos fios de cabelo, que estão apenas do lado direito da cabeça.
- Eles tem casa, vão cuidar da gente.
- Mas não tem piscina.
- Não - responde ela de costas para o irmão.
Continua arrumando os cabelos da boneca, tenta cobrir a cabeça. Não consegue.
- Eu vou.


Ele olha para ela, triste, assustado.
- Vai me deixar?
- Não. Você também vai.
- NÃO VOU NÃO. Eles não tem piscina.
- E daí?
- A família que levou o Pedro tinha.
- Tinha nada. Quem disse?
- Ele disse!
- E disse também que eles tinham um leão. Era um cachorro, eu vi. O Pedro é um besta.
- Eu não vou.
O comodo tem uma porta para a sala e uma janela. A claridade da janela mostra os poucos móveis. Os dois estão sentado no chão. Ela no centro, com e boneca, ele encostado na parede.
- Ela não vem.
Ele toma um susto com a frase, abre os olhos.
- Quem?
- A mãe. Ela não vem mais. Nunca mais. Eu sei.
- VEM SIM. PROMETEU.
A menina espera um pouco, agora está mexendo no vestido. Puxa pra cima, puxa pra baixo, mexe de novo.
- Vem não. Foi assim quando me deixou aqui. Apareceu uma vezes, depois sumiu.
Uma pausa, enquanto a tarde passa pela janela. De fora um barulho de algumas crianças.
- Eles tem empregada?
- Humm, devem ter. Por que?
- Ela vai fazer meu dever de casa.
- Duvido.
- Ue, ela não faz o que eles mandam?
Ela olha para ele em dúvida.
- Eh, deve fazer.
Volta a cuidar da boneca.
- Será que agora que estamos nós dois aqui ela não vem?
Ela segura a boneca com força. Olha para o rosto da boneca com uma expressão vazia, sem querer dobra o braço da boneca.
- Melhor não vir.
O menino não entende, e não responde.
- Olha, a última vez que ela veio aqui tava bêbada, brigou, caiu no chão, cuspiu na Rosário, tiveram que chamar a policia. Eu não quero ela.
- Mas eu quero.
- MAS ELA NÃO VEM.
- Tá tudo bem ai dentro ? - fala uma voz de fora.
- Tá, Rosário - diz a menina, mais calma.
Ela continua a mexer com a boneca.
- Vai você. Eu vou esperar.
- Esperar o que?
Ficam em silêncio. Ela continua a ajeitar o cabelo da boneca.
- Essa boneca é feia. - diz o menino.
- Cala boca - ela responde. Depois olha pra boneca e começa a rir. É feia mesmo.
- Olha, você vai gostar. A gente vai pra escola de uniforme, ela me mostrou. Eu vou usar saia.
- Eu não quero usar saia.
- Você é menino, besta, vai usar calça. Eles são legais. E tem a Clarissa, a filha mais velha deles.
- Se eles tem uma filha, por que querem os filhos dos outros.
- Clarissa tá velha, gente grande. Vai embora daqui a pouco.
O menino arregala os olhos.
- Eles vão expulsar você também, não quero ir.
- Que isso? Por que eles vão me expulsar?
- Ue, você é maior, vai ficar grande, que nem a Clarinha.
- É Clarissa. Ela vai estudar, longe, mas volta. Eles não vão me expulsar.
O olhar do menino é de medo. Ela levanta e senta do lado dele.
- Vai dar certo. Eles tem uma casa grande cheia de quarto. Nós vamos ter um quarto pra cada um.
- Posso levar meus brinquedos, meu PowerRanger?
- Pergunta pra Rosário, mas não vai dar não. Esses brinquedos velhos são da casa, ficam aqui. Eles compram um novo pra você. Eu vou ganhar as bonecas da Clarissa. Ela trouxe uma da ultima vez. Disse que ia deixar aqui, eu disse não.
- Por que não?
- Aqui quebra tudo, todo mundo mexe. Disse pra levar. Quando eu for pra lá eu pego, vai tá perfeita. Tem até pente.
Depois de um tempo ele volta:
- E se ela vier aqui, procurado a gente.
A menina volta a olhar para a boneca, em silencio. Depois fala.
- Rosário tá aqui. Se ela vier, deixa recado com a Rosário e a Rosário manda pra gente.
- Você acha que ela vem, procurar a gente?
A menina está cansada, não quer mais brigar, não quer falar mais uma vez que a mãe não virá. Não quer mais pensar nela, não quer pensar em nada.
- Vamos lá fora, tá todo mundo na rodinha com a Rosário, vamos lá - e sai correndo.
O irmão fica parado um pouco, olhando para a porta. Depois olha pro quarto vazio, levanta e grita:
- Me espera, eu vou também, eu vou também.