Dona Rosa está chegando a sua casa quando vê Das Dores. Sua vizinha está na janela com uma cara que Rosa já conhece. Na varanda da casa de Rosa, no canto encima de um pequeno banco, está seu orgulho, a maior samambaia chorona do bairro. Hoje a samambaia está ainda maior, acrescida de uns cachos de cabelos castanhos que não param de mexer. Rosa vê e fala:
- Se alguma coisa acontecer a minha samambaia, eu corto seus cabelos e planto no lugar da samambaia. 
A samambaia para.
- Quer uns biscoitos?
Silêncio. 
- Quer um suco de limão? 
Mais silêncio. 
- Minha casa não é buraco pra tatu ficar se escondendo. Ou entra ou deixa minha samambaia em paz. 


Detrás da samambaia sai uma menina de 8 ou 9 anos, com longos cabelos cacheados cobrindo o rosto. Rosa se esforça e não ri da cara séria da menina. 
- Quer uns biscoitos? 
A menina balança a cabeça afirmativamente e pergunta:
- Tem chá? 
Rosa diz que sim e dá um pequeno riso. A menina não gosta de chá, mas acha tão chique sentar na mesa para tomar chá que sempre pede. Na casa ao lado, Das Dores observa e espera. 
- Das Dores, você pode me trazer “bolo”. 
- Agora? 
- Humm. Espera uns 20 minutos. Mas pode avisar por ai. 
- Tá bom. - se despede com um riso no rosto. 
Rosa é a tia do bairro. Já foi professora da escola local. Depois começou a das aulas no abrigo de crianças. É de lá que veio a amizade com muitas crianças. Como Teza, que está sentada na mesa da sala esperando o chá. 
- O que foi?
- … 
- Você não pode sentar pro chá e fazer essa cara de enterro. O que foi? 
- Aquela mulher quer que eu ….
- Um momento. Aquela mulher tem nome e ela é sua …
- NÃO É NÃO. 
- MARIA TERESA, lembre-se que você está na minha casa. - fala Rosa firme, e prossegue num tom mais calmo e gentil. - e você não vai gritar na minha casa. Muito menos comigo, na hora do chá. 
Teza se encolhe um pouco. Uma moça educada e independente precisa saber se comportar no chá. Não pode ficar gritando. Nem levando bronca. 
- Se não quiser dizer “mãe”, - Teza olha Rosa com um olhar duro, que Rosa ignora - diga o nome dela, certo e com educação. 
- A “Dona Lourdes” quer que eu corte meu cabelo. Ela não gosta de mim, acha que manda em mim. 
No silêncio de Rosa olhando para Teza está uma afirmação que a menina espera mas não gosta: 
- Ela manda sim. Se você ao menos cuidasse desse cabelo eu concordaria com você, mas parece um ninho de pássaros. - o silêncio retorna a sala. 
Quando o chá fica pronto, Rosa coloca as xícaras, o bule e um pratinho com biscoitos. Sentam-se em sua pequena cerimônia. 
- Agora pare com isso e diga do que se trata. Não é do seu cabelo, que todo mundo sabe que precisa cortar. É sobre a Lourdes. Semana passada não havia problema. Semana passada ela era sua mãe. Por que agora não é mais. 
Teza baixa os olhos, procurando a coragem debaixo da mesa. 
- Foi a Crica. - murmura. 
- E o que foi que a Crica fez dessa vez? - indaga Rosa, evitando mostrar a irritação ao ouvir esse nome. 
- Ela … ela disse que minha mãe foi no abrigo, me procurar. 
Rosa pensa na Crica, Cristina, menina inteligente e bonita, mas causa de muitos problemas na vila. Mentiras, insinuações, fofocas. Atrás de metade das brigas e confusões que as crianças se envolvem começam com algo que a Crica disse. Rosa respira e prossegue: 
- Teza, eu conheci sua mãe, isso é ,sua mãe de barriga. - Teza contrai rapidamente o rosto - Você conheceu sua mãe de barriga. - Teza volta a olhar para o chão, escondendo o rosto de Rosa. 
- Quando foi a ultima vez que ela foi te visitar no abrigo? Você lembra quando foi? 
- Ano passado. 
- Não, não foi. Foi quando ela te levou aquele presente, lembra? 
- É, foi …
- Era um presente pelo seu aniversário, não era? Qual era a idade? 
Teza silencia. Foi um presente para o aniversário de 4 anos. Mas Teza já tinha 5 e nem era o dia do aniversário. Nem o mês. Rosa prossegue: 
- A Crica não sabe de nada. Como saberia? Ela inventou isso, como sempre. Eu vou lá no abrigo toda semana, ninguém falou nada. Sua mãe … sua mãe de barriga ela … - Rosa olha e vê que a menina não quer mais ouvir. 
- Por que minha mãe é assim? 
- Não sei. Ela tentou, mas não consegui cuidar e você. Por isso ela hoje é só sua mãe de barriga. Sua mãe de verdade quer cortar seu cabelo pra festa na escola. E comprar um vestido longo, rodado. 
Teza levanta o rosto e Rosa pode ver os olhos cheio d’agua. 
- Agora vamos limpar esse rosto e terminar o chá, que se você precisa se desculpar com alguém. E nunca mais me venha falar da Crica. Ela … ela é … 
- Ruim.
- Não diga isso!
- Mas ela é. - grita Teza. 
Rosa tenta achar um caminho para desculpar a outra, lembra da história da Crica, procura uma saída, mas não acha. 
- A Crica, ela … - silencia. Rosa solta uma lágrima, Teza a abraça, chorando muito. 
Toc, toc, alguém bate na porta. Rosa levanta se recompondo, Teza senta e enxuga as lágrimas. 
- Desculpe eu bater, a Das Dores me disse pra esperar, mas eu não aguentava mais. - diz Dona Lourdes. Teza vira de costas para enxugar as ultimas lagrimas. 
- Teza, eu disse que você tinha que se desculpar com alguém. - Dona Lourdes faz que não com as mãos, sugerindo que não seria necessário, mas a menina pula da cadeira e abraça a mãe. 
- Olha, se não quiser a gente não corta esse cabelo, deixa isso pra outro dia. - diz D Lourdes. 
- Teza? - pergunta Rosa com uma careta, como se estivesse falando muito sério. 
- Não, nós vamos. Vamos sim. - diz a menina , que sai andando mas ainda abraçada na mãe, que está surpresa e maravilhada.