Dona Rosa

- Por que você não adota?

- Eu? Nãoooo. Gosto de ajudar, mas adotar é mais complicado.

Rosa ouve a resposta, mas não parece disposta a desistir tão fácil. Teresa é voluntária no abrigo, onde as duas estão nesse momento preparando uma festa junina.

- É complicado. Tem que ser aprovado, a fila demora, não é simples.

- É simples sim. A habilitação é um curso, uma entrevista e uma visita, coisa rápida. A fila, sim, demora, mas para quem quer adotar bebês. Você quer um bebê? Você tá aqui arrumando festa para bebês?

O acordo (uma estória de adoção tardia)

 

Essa não é a vida que eu queria.

 

Antes eu queria minha mãe antiga, numa casa boa, cuidando de mim e de meus irmãos. Queria que ela me levasse para a escola, olhasse meus cadernos, comprasse lápis e caderno. Que brincasse comigo e me deixasse brincar com as outras crianças da rua. Queria olhar pra ela e ver como eu seria quando fosse grande, igual a ela. Isso é o que eu queria, mas não quero mais. Não aconteceu e não vai acontecer. Esperei por muito tempo e apenas coisas ruins aconteceram. Eu não quero ser ela.

Você também queria que sua filha viesse de outros jeitos, mas não deu. Queria que eu não tivesse lembranças além de você me levando ao parque. Queria olhar para mim e achar o nariz do tio e os olhos da avó, mas eu não tenho esses olhos. Queria, pelo menos, que a cor fosse a mesma. Não é.

“Oi mãe.

Me disseram que você vai passar no abrigo. Me disseram que, talvez, quem sabe, você vai passar no abrigo. Então eu estou escrevendo essa carta pra você.

Eu era a Sheila.

Agora mudou. Agora sou Teresa, que nem a santa. Vou a igreja toda semana. É bonito, grande, a gente canta. É bonito mesmo.

Tô escrevendo para dizer que tá tudo bem, não precisa se preocupar. Tenho escola e casa. Bem melhor que o abrigo. A escola tem uniforme e a professora é muito bonita. Tem muitos cadernos e livros. Eu não gosto de ler. A professora disse que quando eu aprender vai ser mais fácil. Eu não gosto. As meninas da escola são legais. Elas têm um monte de coisas e as vezes emprestam.

Eu tô bem agora. Até minha tosse passou. As vezes volta, mas é bem fraquinha. Tem um xarope que eu estou tomando e vai resolver.

Então você não precisa mais se preocupar, nem vir pro abrigo. Eu tô bem”

 

Saindo da casa de Dona Rosa, vai a família: o casal e a pequena menina, não mais do que oito anos, segurando nas mão do pai e da mãe. Parecem tranquilos, não felizes, mas tranquilos. Seguem pelo meio da vila, na direção da rua.
- Ela acreditou? - pergunta Marildes.
Rosa olha com certo espanto.
- Claro, por que não acreditaria?
- Por que você mentiu
- Não. Eu não menti. - respondeu Rosa, contrariada.

- No inicio o pessoal da Vara disse que podia mudar o nome. Agora estão criando caso.
Essa é Dona Estela, que vai adotar um menino chamado Jurandir, com seis anos e dez meses. Aparenta seus trinta anos, mas não está em seus melhores dias. Nervosa, irritada.
- Dona Estela, o que a senhora queria mudar? - diz Dona Rosa.
- O nome. Eu detesto aquele nome. É … do interior, capiau, jeca. Ele vai ter o nome do avô, Haroldo, que foi advogado.
- Jurandir, o nome é Jurandir.
- Detesto.

Claudiomiro foi devolvido. Estava com a família há dois meses, ainda em adaptação. Um dia a família foi ao abrigo com Claudiomiro e as malas. Ele não perguntou nada, não entendia o que estava acontecendo.

Na Vara, a família alegou muitas coisas. Disseram que Claudiomiro era mal educado, que sujava o quarto com lama, que não arrumava o armário, que respondia para os pais, que beliscou a filha do vizinho. A lista era longa.

Todos que visitam Dona Rosa olham os porta retratos. São tantas crianças, tão diferentes. Há grandes e pequenos, sozinhos, grupos, fotos coloridas e preto e branco. São roupas de missa e cenas de festa. A maioria são fotos posadas, crianças arrumadas sorrindo para a câmera. Alguns grupos estão sérios, mas a maioria está sorrindo ou rindo mesmo. Sempre crianças.
Quase sempre. Alguns porta retratos possuem duas fotos, uma da criança, e outra de um adulto que um dia voltou para conversar com Dona Rosa. Tem também umas poucas fotos de famílias. Essas são fotos de muitos sorrisos. As mães sorriem, as crianças sorriem, todos sorriem. São sorrisos grandes, são fotos bonitas. Nelas está escrito adoção, nas famílias tão diferentes em cores e rostos, mas todos sorrindo.

Duas batidas na porta anunciam o visitante. D Rosa abre e encontra um homem, passados dos trinta, alto, magro com uma expressão tensa, ansiosa.
- Dona Rosa? Dona Rosa Figueiredo?
- Sim, mas não sou parente do general - disse rindo.
- ???
- É uma brincadeira. Sim, sou eu, e o senhor é?
- Manoel, Manoel Andrade. Ah, senhora lembra de mim?

Dona Rosa, Professora Estela e Das Dores, a vizinha, estão sentadas na mesa olhando desenhos que Estela trouxe da escola. A tarefa das crianças era desenhar as mães. O exercício tem várias utilidades, de testar o desenvolvimento motor até ver como as crianças enxergam suas mães.
- Veja este - mostra Estela
- Que horror! A mãe dele tem dentes enormes. Muitos dentes. - se espantam Rosa e Das Dores - E o que é isso nas costas?
- Uma barbatana.
- Por queeee?
- Ela é um tubarão.

Na pequena sala da casa o silêncio é desagradável. Em volta da mesa estão três mulheres. A mais nova, Keyla, mal chega aos 15, talvez 14. Está grávida e sua expressão é de raiva. Ao seu lado está Valdirene, uma versão mais velha de Keyla. Do outro lado da mesa está Dona Rosa.
- Milha filha, pensa melhor, isso …- fala Valdirenes.
- Eu não sou filha sua, eu não tenho mãe. Meu filho vai ter. - Keyla responde sem tirar os olhos de Rosa, que está a sua frente.

- Foi naquele momento que eu soube que ela era minha filha. Eu estava na escola, vendo a apresentação do dia dos pais, e ela acenou pra mim. De repente eu estava chorando.
Essa declaração foi a primeira do grupo. O tema, segundo a coordenadora, era o “momento perfeito”, aquele em que a mãe ou o pai sentiu que o filho adotado era realmente seu filho.

Desculpe, Dona Rosa. Eu tentei. Ele também tentou. Acho que ele tentou mais do que eu, me ajudou, mas não deu, não vai dar. Eu não quero ser a mãe dele. Não é que ele tenha feito alguma coisa, ele não fez. Aprontou uma confusão na escola e outra na casa da minha mãe, mas não foi isso. Eu não nasci pra ser mãe. Não dele nem de ninguém.

Duas crianças. Uma menina de 8 e um garoto menor de 5.
- Eles tem piscina? - pergunta o menino.
- Não.
- Então não quero ir.
A menina está arrumando uma boneca, os poucos fios de cabelo, que estão apenas do lado direito da cabeça.
- Eles tem casa, vão cuidar da gente.
- Mas não tem piscina.
- Não - responde ela de costas para o irmão.
Continua arrumando os cabelos da boneca, tenta cobrir a cabeça. Não consegue.
- Eu vou.

- O Serginho é adotado?? - diz Pedrinho, surpreso.

- Sim, ele é. Você nunca reparou como ele é diferente dos pais? - pergunta o pai.

A mãe do Serginho era do tipo atlético: academia, maratonas, conversa fazendo alongamentos. O pai é mais tranquilo, meio bonachão. Ambos tem pouco menos de 30 e de um branco louro quase norueguês, pouco comum no Rio de Janeiro. Serginho é o que chamamos de moreno, bem moreno.

- Hummm … não. Crianças são diferentes. - e esquece do pai e do mundo, vidrado no video game.

 

Dona Rosa está chegando a sua casa quando vê Das Dores. Sua vizinha está na janela com uma cara que Rosa já conhece. Na varanda da casa de Rosa, no canto encima de um pequeno banco, está seu orgulho, a maior samambaia chorona do bairro. Hoje a samambaia está ainda maior, acrescida de uns cachos de cabelos castanhos que não param de mexer. Rosa vê e fala:
- Se alguma coisa acontecer a minha samambaia, eu corto seus cabelos e planto no lugar da samambaia. 
A samambaia para.
- Quer uns biscoitos?
Silêncio. 
- Quer um suco de limão? 
Mais silêncio. 
- Minha casa não é buraco pra tatu ficar se escondendo. Ou entra ou deixa minha samambaia em paz.