O que parece uma pergunta inocente para qualquer um, para alguns pais é a dor do dedo na ferida. Conferir a paternidade dealguém, mais que invasão à privacidade, pode representar o constrangimento de tocar num assunto delicado e o enxerido arrisca-se a ouvir uma resposta malcriada.

Pais adotivos, por exemplo, odeiam essa pergunta. Presenciei muitas queixas e ouvi as mais variadas respostas possíveis para essa simples pergunta nas várias atividades ligadas à adoção em que me envolvi nos últimos anos e no meu círculo de amigos – também pais adotivos. Aliás, eu mesma estive nesse lugar de ver contestada minha maternidade, não só em relação a meu filho adotivo, mas também ao caçula, gerado por mim.

 

Embora seja uma pergunta comumente ouvida por pessoas que adotam, principalmente se a criança não for um bebê ou caso tenha cor de pele diferente da família adotante, os pais e as mães sempre são pegos de surpresa e lhes falta calma para responder convenientemente o que, muitas vezes, não passa de curiosidade social ou mesmo tentativa de iniciar uma conversa. Alguns, num extremo mau humor, respondem da forma mais grosseira que encontram, como o pai branco, questionado sobre a grande diferença física de seu filho negro, respondeu que o c* do menino era igual ao seu – o que, aliás, é bem pouco provável.

Olhando de perto, não fica difícil entender o porquê de tanta irritação. Quem foi criado na segunda metade do século XX pode assistir às profundas transformações por que passou a família nos últimos 40 anos. Pais divorciados, mães solteiras, filhos gays não são mais a desonra da família. As crianças falam, sem constrangimento, sobre irmãos nascidos de outros casamentos de seus pais - o que, aliás, é também ouvido sem espanto algum. Por outro lado, é preciso ir ao canto da sala para sussurrar “ele é adotado”. A vergonha nem sempre parte das famílias adotivas, mas as atinge no que elas têm de mais caro: a legitimidade da formação da família e do amor que a une. Os meios de comunicação se encarregam de reforçar o preconceito da sociedade. Não há novela de TV que abra mão de retratar filhos adotivos buscando seus “pais verdadeiros”, mesmo depois de uma vida inteira ao lado dos pais afetivos. O desejo de conhecer sua origem e saber com quem se parece é comum a todo indivíduo, mas me arrisco a afirmar que a grande maioria dos filhos adotivos, ainda que desejem conhecer seus pais biológicos, não os elegeriam como “verdadeiros”, deixando à família adotiva uma parentalidade de mentira.

Quando meu filho caçula nasceu, eu já estava com mais de 40 anos. Não foram raras as vezes que fui chamada de avó ou que se referiam a meu filho como “seu netinho”. Os mais abertos a novidades perguntavam se era meu filho. A pergunta doía porque chamava a atenção para o fato de que, no entendimento da sociedade, meu tempo de mulher parideira, biologicamente ativa para a procriação – e, portanto, para o sexo -, havia passado, embora meu filho fosse a prova em contrário. Dói, da mesma forma, ao casal infértil ser confrontado com a sua incapacidade de gerar os próprios filhos. Uma das principais causas do perfil limitado (criança com poucos meses de idade e de pele clara) da criança esperada pelas famílias que se inscrevem para adoção nas Varas da Infância é evitar o constrangimento – para a criança, segundo os adotantes – de ter de explicar a todos a falta de semelhança física entre pais e filho. Pelo bebê mais novo e mais parecido possível com os pais adotivos espera-se muitos anos na fila do cadastro para adoção.

Respostas rancorosas não melhoram a forma como a filiação adotiva é percebida por todos que as ouvem - inclusive a criança. Adultos tendem a achar que crianças são surdas e, por isso, podem dizer qualquer coisa na presença delas sem que cause qualquer reação. Uma mãe adotiva gabou-se de que, ao ouvir a célebre pergunta “é seu filho?”, respondeu de pronto: “não, é seu!”. Crianças não entendem ironia e sarcasmo. Imagine você, leitor, aos 2 anos de idade, ouvir sua mãe dizer, com voz forte, a qualquer um na rua, que você é filho de quem perguntar. Não me espanta que a filiação adotiva ainda seja vista com vergonha. Para se evitar expor a condição de família que adota, justifica-se até mesmo ser mal educado ou dizer palavrão. Com isso, ensinamos a nossos filhos que adotar é ruim e vergonhoso.

Por ironia, ninguém até hoje pôs em dúvida a autenticidade do meu filho adotivo, afinal, somos quase da mesma cor de pele. Meu marido e meu filho mais novo, porém, são bastante brancos e, então, a diferença fica mais visível. Com meu filho aprendi a responder a pergunta incômoda. Nos momentos em que é questionado se é mesmo irmão de seu irmão ou filho de seu pai, ele explica paciente, com sorriso no rosto e voz simpática: “sou sim, mas não pareço com eles porque fui adotado”.