Não existe um momento certo como regra. Toda ocasião pode ser considerada um momento possível para conversar com a criança sobre sua história e a história da família que a adotou. Muitos pais adotivos falam sobre adoção na frente da criança, mas não falam com ela sobre sua adoção. 

 

Pais e mães adotivos devem estar disponíveis para conversar com a criança sempre. Se em virtude da correria do dia a dia o diálogo não puder ocorrer naquele momento em que a criança o iniciou, este deve ser retomado assim que possível, de preferência em um momento no qual se esteja mais relaxado. Mas se o pai ou a mãe nunca consegue relaxar, isso não é motivo para não conversar com seu filho.

Falar com a criança sobre sua adoção respeita seu direito de conhecer sua história e origem; dá a ela um senso de realidade; confirma vivências da própria criança apagadas pelo tempo, mas por vezes ainda carregadas de emoções potencialmente geradoras de dificuldades se não forem elaboradas, conversadas.

Conversar com a criança sobre sua história oferece um sentido compartilhado para ela. Pais e mães adotivos podem contar para seu filho que toda criança nasceu do encontro de um homem e de uma mulher, ou de uma célula masculina com uma feminina se ela foi gerada por inseminação artificial (quase nenhuma criança adotada foi gerada desse modo). Desse encontro especial surgiu uma vida, a dela.

Mães e pais adotivos podem valorizar também o que aconteceu depois que seu filho nasceu. Ele viveu situações e aventuras que podem ter sido perigosas ou tranquilas. Algumas a família adotiva conhece porque lhe contaram ou estava escrito, outras essa família desconhece, pois não estava com a criança desde o início de sua vida. 

Se aconteceu alguma coisa com a criança que a colocou em perigo ou a envergonhou (maus-tratos e abuso sexual, por exemplo), pais e mães adotivos devem dar apoio ao seu filho ou filha e dizer que aquela situação não deveria ter acontecido, que nem todos os adultos entendem o valor de uma criança e, sobretudo, que o ocorrido não é culpa dele ou dela.

O uso de palavras ou expressões pejorativas sobre a família biológica da criança deve ser evitado. Não se deve usar a "verdade" da família de origem como instrumento de punição, humilhação ou autopromoção. Também é inadequado inventar coisas bonitas sobre a família biológica, contando fatos não condizentes com a verdade. Mas se houver coisas legais a dizer, devem ser ditas. A família biológica será sempre uma parte do filho adotivo. 

Há muitas coisas a dizer à criança adotada. Os pais ou mães podem lhe contar sobre sua chegada à família adotiva, falar da alegria que esse filho ou filha lhes proporcionou e proporciona todos os dias. Podem lhe contar como era a vida da família antes da sua chegada e o quanto ficou melhor e mais colorida depois que ele ou ela chegou.

Pais e mães adotivos podem ainda organizar um álbum de fotos ou diário com essas experiências e deixar que seu filho ou filha tenha acesso livre ao material. A família pode fazer uma cópia de uso diário se desejar e colar com a criança as novas fotos ou anotações das novas aventuras que ela vive com a família adotiva.

Outra opção é ver um filme ou ler historinhas sobre adoção e estar disponível para bater papo com a criança sobre o que viram ou leram juntos, ou apenas estar ao lado dela nos momentos mais emotivos. A questão é não ter medo. Quando o diálogo é aberto, tudo o que os pais e mães adotivos disserem com amor não poderá prejudicar seu filho ou filha.

 

*Psicóloga e Supervisora Substituta da Seção de Colocação em Família Substituta da Vara da Infância e da Juventude do DF