Crianças são crianças, da mesma forma que mães são mães e palmito é palmito. Todos podem mudar de endereço, mas continuam sendo o que são: crianças, mães e palmito.

Essa é uma lição que as mães não devem esquecer.


Sara, jovem mãe, está na varanda de Dona Rosa, esperando pela dona da casa. Sara adotou Clarissa uma menina de 9 anos, que chegou bonita, mas fica mais bonita a cada dia devido aos cuidados da nova mãe. Não há um pai. Clarissa não estranhou a moça sem marido, afinal ela nunca teve pai mesmo. Tinha uma mãe, às vezes.

Sara não tem problemas de saúde, nenhum tipo de complicação para engravidar, além de não ter marido. Havia um candidato, um noivo, mas nem todas as surpresas na vida são boas, e a vida de Sara agora não tem mais noivo, dispensado sumariamente depois de um curto período de convivência. Mas ela resolveu que iria ter uma família, então foi para a Vara da Infância. Seus pais estranharam a ideia, reclamaram um pouco e xingaram muito o noivo desaparecido. Mas isso foi antes de Clarissa. A chegada da menina mudou o humor dos pais de Sara, que agora são os avôs da pequena Clarissa.

A menina não sabia, mas já havia sido dispensada por várias famílias. Um defeito na perna a fazia mancar de uma forma desagradável para quem procura uma pequena princesa. Clarissa não era uma princesa, definitivamente, e não era apenas pelo problema da perna. Era subia mais rápido nas árvores do abrigo, usando isso para fugir das cuidadoras. Mas também não era por subir em árvores que Clarissa não era uma princesa. Talvez ficar em cima das árvores atirando coisas nos meninos do abrigo, nas cuidadoras e nas visitas explique quem era Clarissa. Uma vez achou um pássaro morto, que acertou num casal que visitava outra criança. Outra feita foi de árvore em árvore até entrar na casa de um vizinho para roubar um bolo de aniversário.

Clarissa não era uma princesa. Clarissa era uma criança. Daquelas que aprontam.

Dona Rosa chega das compras, muito carregada e cansada no dia quente. Sorri para a visita, o que seu cansaço lhe permite. Entram e Sara se senta enquanto Dona Rosa guarda as compras e arruma um chá para a visita inesperada.

- Eu quero agradecer. A senhora é mágica.

Rosa suspira, não se sentia muito mágica no momento.

- Ela tá tão comportada, até tá ajudando na casa.

- Que bom , responde Rosa com um certo enfado.

- Eu queria agradecer e saber o que aconteceu, como foi?

Mas aqui precisamos voltar uma semana atrás, quando Sara procurou Rosa com problemas na alimentação da menina. Dona Rosa não achava que tinha algo a ver com isso, e definitivamente não queria ter, mas aquela moça entrou quase sem pedir. Rosa ainda ia descobrir quem, na Vara havia dado seu endereço. Depois de entrar, começou a relatar problemas e pedir conselhos. A menina não estava comendo direito. Mas, dizia Sara, ela tem muitos traumas, de não ter um pai, de ter perdido a mãe, de ter vivido no abrigo, do problema da perna, etc. Sara era uma moça moderna. Entendia como essas experiências podiam afetar a formação psicológica de uma criança. Dona Rosa ouvia. Sara cuidava para que a menina tivesse todo apoio, incluindo fisioterapia, psicóloga e empregada que carregava a mochila dela para a escola. Tudo era feito para poupar Clarissa. Mas agora surgira algo novo. Ela não queria comer quase nada, só bife e batata frita. Dizia que as outras comidas, saladas, traziam lembranças da comida do abrigo. A pior de todas era a palmito que era obrigada a comer no abrigo. Dona Rosa ouvia. Sara quase ficou de joelhos para pedir ajuda, mas Rosa evitou essa cena. Prometeu conversar com Clarissa.

Na semana seguinte, Rosa visitou Clarissa. Conversaram e agora Sara vem agradecer e relatar as mudanças na menina.

- Ela tá ajudando com os brinquedos, tá comendo melhor, disse que dá conta de carregar a mochila, mas eu não deixo. Ainda não come o palmito, mas isso é por causa do abrigo e nem vou insistir.

- NÃO COMEU O PALMITO? - fala Rosa num tom um pouco alto e assusta Sara. A própria Rosa percebe que se excedeu um pouco. Por um momento há um silêncio na sala.

- Sara, é Sara, não é? - Sara concorda com a cabeça, assustada. - ser mãe não é simples. Eu sempre achei que marido é uma boa coisa. Não são perfeitos, a maioria, e alguns é melhor ficar sem, mas ajuda. Mais do que empregada. Mas vocês são jovens, independentes, então tá. Mas essa menina é … - Rosa segura uma palavra. A palavra era cão.

- Sara, você precisa de ajuda, porque ela vai dar trabalho. Vamos esclarecer uma coisa. Ela não dá a mínima por não ter pai, pela perna ou por muitas coisas e nunca houve palmito no abrigo. Ela tá te enrolando, e muito.

Sara olha para Rosa, entre espanto e surpresa.

- No abrigo, ela carregava outras crianças, mais pesadas do que ela, e arrumava a cama, TODO DIA. Ela subia nas árvores, telhado, poste e agora não consegue arrumar uma cama?

Sara ainda não se recuperou do espanto, mas começa a mostrar um novo sentimento, indignação.

- Sara, entenda, Clarissa é uma criança. Que criança quer comer palmito, ou qualquer salada? Nem os adultos querem. As crianças comem porque existe uma mãe que manda e se faz obedecer. Pulso, tenha pulso mulher! Criar filhos é uma batalha, e você está perdendo feio. Clarissa nunca viu um palmito no abrigo, garanto. Trauma pode haver alguns, mas ela tá é se aproveitando, e muito.

Sara agora ouvia, em silêncio, tentando juntar as palavras de Rosa com sua pequena Clarissa.

- Mas ela é tão frágil, tem apenas 9 anos.

- E tá fazendo você de gato e sapato. Crianças adotadas são crianças, não querem comer palmito nem arrumar a cama. Têm várias desculpas e descobrem quais funcionam. Você tem peninha de sua menininha cheia de traumas. Ela tem seus traumas, com certeza, mas também é uma sacripanta que tá te enrolando.

- O que a senhora disse pra ela, pra ela estar tão cooperativa?

- Falei para ela parar com essa palhaçada, que era pra arrumar a cama, carregar livros, ajudar na casa e tudo mais. Que era pra comer o que estivesse na mesa, inclusive a droga da palmito. Falei que ela desse trabalho, eu ia lá e fazia a verdadeira comida do abrigo, porque eu conheço a comida do abrigo. Ela jurou que ia fazer tudo direitinho, inclusive comer a droga do palmito.

Sara está parada, pensado no que fazer, pensando na pequena criança que tem em casa.

- Você volte lá, faça a droga desse palmito e diga para sua menina que eu estou de olho. Em vocês duas.