“Quero adotar uma criança, mas precisa ser hoje, o mais rápido possível. Não quero, preciso, é necessário. Não posso esperar, quero adotar rápido, logo.”


Não, não precisa não.

 

Muitas pessoas escrevem para o Portal dizendo que querem adotar. Algumas são bastante sucintas, apenas pedem informações sobre adoção, sem detalhes ou explicação. Fornecemos informações básicas e indicamos os caminhos a seguir, como a Vara da Infância e os grupos de apoio.


Alguns justificam com exames médicos por que querem adotar. Dizem que não podem ter filhos biológicos. Falam de doenças, tentativas, frustrações. É como se precisassem explicar, justificar. Não precisam, fornecemos informações básicas e indicamos os caminhos a seguir.

Alguns contam histórias. Quando pensaram em adotar, por que. São sonhos antigos do casal, às vezes baseado num caso contado por um amigo ou num vizinho próximo. Ouvimos essas histórias, depois fornecemos informações básicas e indicamos os caminhos a seguir.

Alguns perguntam sobre problemas específicos. Qual é a renda necessária? Não há renda definida. Há perguntas sobre casais do mesmo sexo, ou pessoas solteiras. Perguntam se ter filhos biológicos, ou adotados, é um empecilho. Informamos que não é. Perguntam se ter adotado anteriormente dispensa de entrar na fila de novo. Não dispensa. Entre uma resposta e outra acrescentamos um comentário, ou recomendação. Embora não haja renda mínima, é importante pensar nos custos de criar uma criança. Depois fornecemos informações básicas e indicamos os caminhos a seguir.

Alguns falam de problemas de idade, por serem muito jovens ou muito idosos. Falamos sobre as regras da lei, mas lembramos que adoção é uma ação de longas consequências. Para os jovens, devem pensar num compromisso, tão sério, numa fase tão precoce. Para os mais idosos, lembramos que crianças crescem, mas precisam de pais por muitos anos. Depois fornecemos informações básicas e indicamos os caminhos a seguir.


Mas há um grupo que nos preocupa muito. São aqueles que têm urgência.

Eles afirmam que precisam adotar agora, logo, que não podem esperar. Falam de uma necessidade angustiante.

A primeira preocupação vem o fato que adoção existe para atender a uma necessidade da criança, não dos adotantes. Mas podemos pensar em duas necessidades, de adotar e de ser adotado, que se completam.
A segunda preocupação é que adoção é um processo lento. Não se trata de falar de uma justiça lenta, mas a fila de adoção é lenta. A espera na fila, que depende apenas de aparecer crianças para serem adotadas, pode levar até três, quatro, cinco anos. O que essa pessoa vai fazer? Vai conseguir esperar? Esse desejo urgente vai durar tanto tempo?

Mas a maior preocupação está depois da adoção. Cuidar, criar um filho é um processo lento, às vezes tedioso. Cada aprendizado precisa ser repetido várias vezes. Para os bebês isso inclui usar talheres, não jogar comida no chão, avisar quando quer água ou comida. Depois virá o aprendizado para largar as fraldas, vestir-se sozinho, etc. Haverá um dia para falar sobre arrumar o material da escola e saber, pela quinta vez, que o dever de casa não foi feito. Isso é normal. Algumas crianças fazem o dever de casa sem problemas, mas não tomam banho direito, ou arrumam a cama, ou cumprimentam os vizinhos, ou quebram a teve com a bola de futebol. Algumas lições serão repetidas dez vezes antes de serem assimiladas. Essas são as fáceis. Algumas crianças se tornaram adultos esquecendo-se de passar um desodorante ou pentear o cabelo. É preciso paciência.

Será preciso paciência por muitos anos. Na verdade, pelo resto de sua vida.

Então, ficamos preocupados com pessoas que “precisam” adotar, e muito preocupados com aqueles que “precisam urgentemente” adotar uma criança. Caso consiga esperar pelo processo de adoção, pelo tempo normal de espera na fila, conseguirá a paciência necessária para cuidar de seu filho? 

Se não conseguir, devolverá a criança.

Podíamos falar muito sobre o que significa essa devolução para a criança. Vamos resumir de uma forma simples. A devolução precisa ser evitada. As Varas da Infância fazem seu maior esforço para evitar mais essa tragédia numa vida que já teve tantas.

 

Não, ninguém precisa adotar uma criança urgentemente.