Tábata Morelo

 O dia em que ele chegou em casa parecia um dia de muitas horas, horas a mais. Não, não tinha nenhuma poesia nesse dia. A sensação era de violência, que tínhamos arrancado uma criança de sua zona de conforto, mesmo que o abrigo não seja o conforto que sonhamos para nossas crianças, era a zona de conforto que ele conhecia nesses seus 1 ano e 2 meses de vida. Um choro contínuo fazia os minutos irem mais lentos ainda e nossas dúvidas crescerem. Será que estamos fazendo a coisa certa? Será que a gente está precisando disso agora? A gente não estava tão feliz antes? Será que o nosso outro filho (de 1 ano e 6 meses) precisa passar por isso? Será que vamos dar conta desse, do outro e do que está na barriga?

Esse dia foi longo e nós nos olhávamos sem falar nada, com todas essas dúvidas. Depois de atravessarmos as horas, finalmente conseguimos colocar os dois para dormir. Um embalou um em uma rede, o outro embalou o outro e os dois bercinhos estavam lá no nosso quarto, com dois sonos distintos, duas pessoinhas em construção. Tentei lembrar de algum relato sobre essa dificuldade do primeiro dia, da primeira semana, não tinha lido nada assim, só algumas pontuadas sobre a “fase de adaptação”.

Já faz mais de um ano que meu filho do meio chegou em casa. Esse ano passou rápido e o dia que durou várias horas já não durou tanto assim, hoje lembrando. Agora são três que choram, que riem, que falam sem parar, que cutuca os irmãos que tem que colocar pra dormir, um numa rede, outro na outra e depois outro na outra ou três na mesma rede, ou dois em uma, um acordado até mais tarde. Tudo bem, pode ver um filme. Depois do sufoco de todo dia (que tem menos horas que deveria) os três estão dormindo. Cada um na sua cama, cada um com sonhos distintos, três pessoinhas em construção. Eles estão em suas zonas de conforto, na nossa casa. Dessa zona de conforto ninguém vai tirá-los.

Sobre as dúvidas do primeiro dia? Sobre os medos da primeira semana? É só a “fase de adaptação”.

 

Texto de Tábata Morelo

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