Há muitos modos de uma família crescer. A maioria acontece aos poucos, como uma amizade que vira namoro, depois noivado e um dia se casam. É um fio que vira barbante, de barbante se transforma em corda, e depois fica mais forte. Ao longo dessa história vão aparecendo primos, tios, avós, amigos e tudo mais. Com tempo novas relações serão construídas. Nora, cunhado, amigo da esposa, etc. Depois podem vir netos e as cordas ficam mais firmes, mais grossas.

Às vezes um filho nasce. Leva anos até falar as primeiras palavras, e outros para dizer o que pensa. São muitos anos. Nos primeiros dias somos iguais a todos os adultos que trocam fraldas. Com o tempo a criança percebe que esse adulto é diferente dos outros. É diferente para ela. Existe uma corda ligando-os eles. Às vezes isso é bom, às vezes não é, mas ficará lá para sempre. Com o tempo poderá se alongar, ganhar distância ficar quase esquecida e invisível, mas estará lá.

Mas conosco será diferente.

Temos pouco tempo e somos parentes esquisitos. Muito próximos e muito desconhecidos, desconfiados. Mas nem sempre teremos tempo para ganharmos e merecermos confiança. A vida é curta, e nossa vida juntos será ainda menor. Seremos parentes esquisitos.

Geralmente vemos os filhos crescerem. Aprendemos seus gostos um por um. Gosta de abóbora, não gosta de água fria, adora ficar no tapete da sala. Vemos o desenvolvimento de seus hábitos. Os banhos são quentes, as roupas ficam embaixo da cama, prefere correr a andar, tem medo de cachorro, mas enfrenta qualquer gato. Desde o início negociamos regras. Fazemos isso antes de conversarmos. É ouvindo não, ou simples "nanana" que informamos ao bebê que não pode mexer na tomada, ou na TV. Ele não entende as palavras, mas entende a expressão. Com o tempo vai entender essas e outras palavras. Agora não, depois do almoço, tá tarde, tá cedo, mais rápido, não está bom, faça de novo. Com o tempo a criança aprende o que queremos e o que permitimos. Vai aprender quais regras são rígidas e quais são flexíveis. Quais infrações vão nos deixar chateados, e quais vão nos deixar furiosos.

As regras vêm conforme a idade. Não mexer na água da privada vem bem cedo. Voltar para casa antes das 10h vem bem mais tarde.
Falaremos sobre comportamento de várias formas. Muitas vezes os pais vão ditar o que se deve fazer; outras, as crianças aprendem apenas por repetir o que os adultos fazem. Às vezes vamos esclarecer que aquele adulto não deve ser imitado, mesmo que seja parente.
Mas conosco será diferente.

Tenho que ensinar tudo a você. Tudo que alguém deveria ter ensinado desde o berço. Mas creio quer que você não teve um berço. Não sei quem cuidou de você até aqui. Sei que as coisas não deram muito certo, mas não sei de tudo. Você às vezes me conta alguns detalhes. Entre fantasias e invenções, alguma coisa deve ser real, mas nenhum de nós dois sabe o quê.

Não sei seus gostos. Na verdade, você experimentou poucas coisas até aqui. Tudo será descobrimento.
Regras são um desafio. Não dá para exigir tudo de uma vez. Até ontem podia, agora não pode mais. Até ontem podia correr na rua, dormir na grama, pegar coisas aqui e ali, usar roupa suja, subir na árvore e ficar lá até cansar. Tudo que você sabia não vale mais.

Seria mais fácil se você acreditasse que eu sou seu pai. Será mais fácil se eu acreditar que sou seu pai. Nós dois sabemos disso, mas acreditar é diferente.

Você olha pra mim, tão diferente de você, e pensa se eu vou ficar ou vou sumir. Outros já sumiram. Um dia, sem aviso, saíram e nunca mais apareceram. Mesmo no abrigo, alguns casais foram ver você, como se fosse uma mera visita. E apenas uma visita foi feita. Sem aviso, nunca mais apareceram. Hoje há um papel dizendo que sou seu pai, assinado por um juiz. Mas você não confia em papéis e juízes. Não sei até que ponto confia em mim.

Eu confio em papéis em juízes, mas também tenho dificuldades. Se chamar você de filho na rua, o que você vai fazer? Como irá me olhar? Não estive do seu lado em momentos tão difíceis e agora quero obediência e confiança? Um pouco cedo, não?
Sim, é cedo, mas não temos tempo.

Preciso colocar você na escola. Não faça xixi na roupa, não responda a professora, não bata, se defenda, mas não bata. Leia, goste de ler. Isso é seu, mas aquilo não. Não mexa sem autorização, não esqueça seu material, não deixe a roupa suja embaixo da cama. Não grite, não rabisque a parede, não corra nos corredores, não guarde biscoito na gaveta das meias, faça o dever de casa, não com essa letra.  Escreva de novo. 

Meu Deus, quantas vezes eu falo a palavra não. Educar é assim mesmo? 

Gostaria de te dar tempo para confiar em mim, mas a escola começa semana que vem. Você já perdeu muitos anos de escola, não pode perder essa segunda-feira. Pegue o uniforme. Está onde você colocou, segunda gaveta. Vista. Assim não, arrume. Isso, está certo agora. Eu sei que é assim porque sou seu pai. 

Não, falei errado. Eu sei que é assim porque era assim quando eu estava na escola. Você vai fazer o que eu estou dizendo porque eu sou seu pai. 

Olho rapidamente para seu rosto para ver a reação. Ele está em dúvida. Eu também. 

Se arrume e vamos, a escola começa hoje, como o resto de nossas vidas.