André Bernardo

  • 10 maio 2016
Foto: Arquivo pessoal
Após adotar quatro irmãos, casal criou associação para receber denúncias de pessoas LGBTI que se sentiram discriminadas no processo

Em um colégio da Zona Sul do Rio, a professora de Ciências conversava com a turma sobre peixinhos, reprodução e filhotes quando, de repente, Maria Clara levantou o braço e, do alto de seus quatro anos, rebateu a explicação: "Tia, isso não é verdade! Não nasci da barriga da minha mãe. Nasci do coração dela". Na mesma hora, sua melhor amiga engrossou o coro: "Eu também, professora!".

Pronto! A docente teve que explicar à turma por que algumas crianças nascem da barriga e outras do coração de suas mamães - ou seja, foram adotadas.

"Ainda hoje, não consigo me esquecer do dia em que recebi a certidão de nascimento da Clarinha, com nosso nome e sobrenome", derrama-se a bailarina Isabella Augusta, de 41 anos.

Existem hoje no Brasil 36,5 mil crianças vivendo em instituições de acolhimento à espera de uma família para chamar de sua. Dessas, apenas 6.567 estão aptas a serem adotadas.

As demais estão fora da lista porque mantêm vínculo com a família biológica ou porque o processo de destituição do poder familiar, indispensável para a consumação da adoção, ainda tramita na Justiça.

"Por lei, essa destituição deveria durar, no máximo, 120 dias, mas, na prática, leva até cinco anos. Enquanto se perde um tempo precioso à procura de parentes biológicos sem vínculo afetivo, a criança envelhece nos abrigos", alerta a advogada Silvana do Monte Moreira, presidente da Comissão de Adoção do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM).

Foto: Arquivo pessoalPerfil de criança idealizado por casais impede que a maioria das que estão habilitadas sejam adotadas no Brasil

A morosidade é tanta que motivou o advogado Eurivaldo Bezerra a chamar a atenção da sociedade para a gravidade do problema no livroFilhos. Em parceria com o fotógrafo Luiz Garrido, ele reuniu os relatos de 40 pais adotivos, como o ator Marcello Antony, a cantora Elba Ramalho e a atriz Drica Moraes, entre outros.

"Até hoje, não entendo por que a certidão de nascimento dos meus gêmeos levou cinco anos para sair", confessa Bezerra, pai de três filhos: Francisco e Miguel, de 9 anos, e Maria Vitória, de 7 anos. "Por que tanta demora?"

LEia a matéria completa em http://www.bbc.com/portuguese/brasil/2016/05/160509_adocao_criancas_ab