No abrigo havia uma bicicleta. Na verdade havia várias. Mas meu filho não andou nelas enquanto esteve lá. Talvez por que estivessem todas quebradas e ele não gostava de brinquedos quebrados. Uma vez fizeram uma grande doação de brinquedos para todos no abrigo. Ele recebeu um carrinho usado, muito usado na verdade. Não quis. Achou que não era justo, que parecia uma esmola. Seja pelo que for não quis o carrinho.

Talvez não tenha usado as bicicletas por que estavam quebradas. As bicicletas dos abrigos sempre estão quebradas. São tantas crianças, as bicicletas não param. E não tem donos, responsáveis, alguém que diga o que pode e o que não pode ser feito com as bicicletas. São usadas até o limite, e depois. Gastam as rodas, os freios, tudo. Quebram. Pode consertar, mas vão usar tanto, que vão quebrar de novo.
Talvez no abrigo onde ele esteve não houvesse sequer bicicletas quebradas.
O que sei é que ele nunca havia andado de bicicleta e queria uma para aprender e andar. Compramos. Ele aprendeu a andar em um dia, sem muito auxílio meu. Eu ainda era um pai novato para aquela criança grande, não sabia como ajudar. Improvisei. Ele improvisou mais do que eu. Tentava e repetia. Caía, voltava. No final do dia tinha tantos machucados, raspões de pele que foi difícil tomar banho. Mas ele sabia andar de bicicleta.
Passou a tentar acrobacias. Conseguiu ser atropelado pela própria bicicleta. Ela simplesmente passou por cima dele. Mas ficou bem.
A bicicleta nem tanto. Foi tantas vezes ao conserto que ficamos conhecidos na oficina. Uma vez reparamos que o peneu estava encostando no quadro. Levamos a oficina e descobrimos que ele havia entortado a bicicleta de tão forte eram suas pancadas contra o meio fio.
Desentortaram a bicicleta. Tivemos uma conversa sobre como cuidar da bicicleta e deixamos ele brincar de novo. Não aconteceu de novo, mas ainda vamos muito a oficina.
Quando ele chegou, dizíamos que todos os brinquedos quebravam. Era verdade. Alguns pelo uso excessivo, até o último suspiro. Outros pelo mal uso, pelo uso de um brinquedo que os fabricantes nunca haviam pensado. Todos os brinquedos iam para o chuveiro, em algum momento. Tivemos que tomar uma providência quando vimos um carrinho elétrico entrando no banheiro.
Mas houve alguns brinquedos que foram quebrados de propósito, apenas para confirmar uma dúvida dele. “Eu posso? Se é meu, eu posso fazer qualquer coisa?”. Ele não disse isso com palavras, mas estava claro. Precisava definir um limite.
“Sim, são seus brinquedos, para fazer o que quiser.” Não dissemos, mas ele entendeu. E muitos bonecos perderam braços e cabeças.

Mas o tempo passa. Um dia por vez.

Hoje ele é o orgulhoso dono de uma Caloi XTR aro 26. Talvez seja XRT, não sei ao certo. Sem cestinha, por que uma bicicleta de menino não usa cestinha.
Ele pediu para levar a oficina, por que o guidon estava solto. Levei, mas não achei o defeito. Depois ele me mostrou, a pequena folga, discreta, que fazia o guidon mudar de posição.
Foi-se o tempo de quebrar para provar que podia. Foi-se o tempo de usar até gastar a última borracha de freio. Foi-se o tempo de fazer testes e acrobacias.
A Caloi XTR (ou XRT) dele precisa ficar bonita e bem cuidada.

Foi-se o tempo das bicicletas do abrigo.

Obs: se você quiser doar uma bicicleta, doe. Ela não vai durar muito, mas vai fazer a alegria de muitas crianças, por algum tempo. E se quiser consertar, os abrigos aceitam também. Basta visitar uma Vara da Infância e eles informam os abrigos mais necessitados.