- Eles tem filhos?
- Não.
- Por que?
- Não podem, problemas de saúde.
- Então vão adotar. – complementa Kyra, desanimada.



Kyra está conversando com Teresa, técnica da Vara da Infância, que veio falar sobre uma família que quer adotar Kyra.

- Querem me conhecer ou adotar?
- Querem adotar, mas primeiro precisam conhecer.
Kyra se cala um pouco. Ela vai ser examinada, avaliada pela família.
- Eles sabem minha idade? – a idade é um motivo frequente para Kyra não ser adotada. A maioria nem vem conhecê-la, outros desistem quando veem aquela menina grande, distante da criança pequena e delicada.
- Sabem, sabem sim. Você quer saber alguma coisa deles? – pergunta Teresa.
- Eles têm piscina?
- Não, não têm. Eles moram num apartamento. Você queria muito uma piscina?
- Não, não é importante.
- Realmente, a piscina não é importante. Kyra não sabe o que perguntar. Tanto Kyra quanto Teresa sabem a verdade, nada é realmente importante. Nada é importante a ponto de fazer Kyra recusar o único casal que quer adota-la depois de tanto tempo.
- Eu sou segunda chance deles.
- Como assim? – pergunta Teresa sem entender o que a menina quer dizer.
- Eles queriam um filho deles, de barriga. Mas não deu. Então eu sou a segunda chance.
Teresa espera um pouco, e pergunta.
- E isso é ruim?
- Humm. Não sei. Eles também são minha segunda chance, de ter uma casa, família.
Teresa olha para a menina, tentando entender tudo que está passando em sua cabeça.

- Eu quero conhecer eles também. Fala com eles, tá?
- Eu falo. Acho que eles virão aqui semana que vem.
- Diz pra eles que eu vou querer um cachorro.
- Um cachorro?
- É. Mas não é um filhote. Quero um cachorro velho.
- Velho?
- Velho não. Adulto, grande.
- E onde eles vão achar um cachorro adulto, sem dono?
- No abrigo. Tem abrigo de cachorro, não tem?